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Visualizar um jacaré-de-papo-amarelo em rios e lagos, e, até, no quintal de casa, já é muito comum em algumas regiões da Baixada Santista

Luciana Sotelo

Eles estão na Terra há, nada mais, nada menos, do que dois bilhões de anos. Sobreviveram a todas as transformações do planeta e, hoje, embora estejam numa posição bem alta na cadeia alimentar, sofrem diretamente a ação do homem. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) já os colocou na lista vermelha de animais ameaçados de extinção. Seu ambiente vive em constantes modificações, seja pela força da natureza, seja pela ganância da sociedade dita civilizada. Com tantos contratempos, os jacarés-de-papo-amarelo têm recorrido cada vez mais à terra firme à procura de sol para equilibrar a temperatura de seus corpos, um processo natural da espécie, mas, sobretudo, para tentar sobreviver frente ao crescimento urbano desenfreado.
Na Baixada Santista, encontrar jacarés-de-papo-amarelo em áreas urbanas, ou mesmo no quintal de casa, já é mais comum do que se imagina. Eles aparecem com bastante frequência na área continental de Santos, em Cubatão, Bertioga, e em Peruíbe, explica a médica veterinária Sandra Perez, que há 17 anos trabalha com animais selvagens e, atualmente, faz parte da equipe do Zoológico Municipal de São Vicente. “Os jacarés fazem muitas incursões em terra; eles não ficam só nas águas. Isso é natural. Além disso, eles estão sofrendo realmente com a pressão da modificação de ambiente, seja por chuva, desmatamento, poluição, invasão de áreas, modificação de curso de rios, ou seja, pela urbanização propriamente dita. Infelizmente, essa é hoje a realidade de muitos animais selvagens”.
Com o nome científico de Caiman latirostris, esse réptil crocodiliano da família Alligatoridae encontra-se em vários biomas, entre eles, a Mata Atlântica; ele ocorre em ecossistemas associados à água de bacias de rios, desde o extremo leste do Brasil até o Uruguai, ao sul. Também vive em ecossistemas costeiros, como os mangues. Sendo assim, seu habitat pode ser formado por brejos, mangues, lagoas, riachos e rios. Daí, o aparecimento frequente por aqui. Em Santos, por exemplo, a prefeitura não possui dados estatísticos, mas garante que a incidência é grande, principalmente, na região estuaria, na área de mangue, próxima ao porto.
Outra cidade escolhida pelo jacaré-de-papo-amarelo é Bertioga. Somente no primeiro semestre desse ano, já foram registradas três capturas. Nas palavras de Nelson Jorge de Castro, diretor do DOA – Departamento de Operações Ambientais -, da prefeitura de Bertioga, “isso acontece sempre em locais próximos aos rios Itapanhaú e Jaquareguava. Eles aparecem nos quintais das pessoas”. Os bairros mais visitados são Chácara Vista Lista, Sítio São João e Albatroz II. “Nós recebemos a denúncia, vamos até o local, capturamos o animal e o levamos para nossa sede, onde ele passa por atendimento veterinário. Estando tudo certo, nós o soltamos no habitat natural”, explica Castro.
Ano passado, foram quatro registros. De acordo com os levantamentos do DOA, os jacarés eram todos adultos, maioria macho e com porte de um metro e meio a dois metros. Nenhuma das ocorrências teve vítima. “Mas isso não quer dizer que não seja um fato muito perigoso. É, sim. Quando somos chamados, vamos na mesma hora”, relata.
O réptil é robusto, esverdeado e possui o menor focinho dentre as outras espécies. Outra característica marcante é o ventre amarelo. Essa condição, inclusive, é que deu origem ao nome. Quando adulto, pode chegar a medir dois metros de comprimento. De acordo com a veterinária Sandra Perez, existem registros de animais com até três metros. Mas, atualmente, é raro encontrar, muito provavelmente devido à caça.

Atração turística
Como se trata de um carnívoro, todo cuidado é pouco. Por causa disso, é melhor contemplar essa espécie com segurança, ou seja, em locais fechados como os parques. Em Santos, é possível admirar uma fêmea de tamanho médio no Orquidário Municipal. Outro exemplar pode ser visto no Parque Ecológico A Tribuna, em Mongaguá.

Pode-se dizer que é uma das espécies com melhor adaptação, afinal, trata-se de um réptil contemporâneo dos grandes dinossauros que habitaram o planeta a cerca de dois milhões de anos. Quanto a isso, a veterinária lembra: “Eles conseguiram sobreviver às grandes transformações do mundo, entretanto, há anos, o homem passou a ser a maior ameaça a esse animal, devido ao interesse pela carne e couro e, sobretudo, a destruição do seu habitat”. Ela comenta que essas ações levaram ao declínio da espécie, hoje ameaçada. “Esses números foram tão significativos que fizeram com que o animal fosse incluído, pelo Ibama, na lista vermelha de animais ameaçados de extinção”.
A veterinária diz ainda que existem fazendas de criação de jacaré-de-papo-amarelo em Mato Grosso e interior de São Paulo. “Essas fazendas produzem animais para suprir a demanda de restaurantes e butiques de carnes. As propriedades são legalizadas e oferecem a possibilidade de recolocação da espécie em natureza, se houver um declínio muito grande”.
Com papel importante na natureza, os jacarés fazem o controle biológico de outras espécies animais ao ingerirem indivíduos mais fracos, velhos e/ou doentes. Outra vantagem é que se alimentam de insetos e de caramujos transmissores de doenças, como a esquistossomose. Suas fezes servem ainda de alimento a outros animais, inclusive os peixes. No quesito reprodução, a fêmea costuma pôr de 30 a 50 ovos, por vez. Ela constrói o ninho próximo à água, com folhas, gravetos e terra. A incubação é de cerca de 90 dias.
Sandra revela outro fato curioso: “Apesar da aparência assustadora, a fêmea é muito cuidadosa com os ovos. Ela fica de olho o tempo todo e, quando está na hora do nascimento, auxilia os filhotes, quando necessário, colocando o ovo cautelosamente na boca para rompê-los. E quando os filhotes nascem, os cuidados são redobrados, pois os jacarés podem ser vítimas de ataques de garças ou outras aves”.

Lenda curiosa
De antigo morador de um morro a uma lenda. Assim ficou conhecido o jacaré que, na década de 1990, habitava a lagoa da Saudade, no morro da Nova Cintra, em Santos. Retirado por profissionais do Ibama, em 2004, a “Florentina”, como era conhecido o animal, ainda habita o imaginário de quem vive por lá. Muita gente acredita que ela vive nas profundezas do lago.
De acordo com a prefeitura, na ocasião, o Ministério Público solicitou a retirada do bicho para evitar que ele machucasse a população, já que, costumeiramente, saía do lago. Na operação, descobriu-se que havia três animais, em vez de um, na lagoa. Todos foram capturados e devolvidos ao seu habitat.

Apesar da curiosidade natural do ser humano com relação aos jacarés, é preciso muita cautela ao se avistar o animal. A veterinária orienta: “Não chegue próximo. Trata-se de um animal que utiliza a calda e a boca para se defender. Se ele se sentir ameaçado, vai atacar”. O primeiro passo é procurar um local seguro para ficar. Depois, entrar em contato com a polícia militar, que já encaminha a ocorrência à Polícia Ambiental. “É importante não tentar amarrar o jacaré, em hipótese alguma, pois ele vai atacar. Eles são muito perigosos, principalmente, ao se sentirem acuados. Naturalmente, o jacaré tem uma imagem que assusta, mas ele é merecedor de cuidados. Merece também nosso respeito, como qualquer animal”.
Outra dica da especialista diz respeito aos banhos em rios e mangues. “A Baixada Santista tem uma incidência natural desses animais, em todos os cursos de rios e mangues. Se já foi avistado algum exemplar, evite se aproximar. Você não pode criar uma situação difícil por curiosidade ou ousadia. Isso pode ocasionar um acidente grave”, pontua Sandra Perez, que finaliza com uma mensagem especial: “No final, quem vai sofrer também é o animal, que pode ser abatido. É preciso que a sociedade compreenda que o jacaré tem o seu habitat, é o único que ele pode frequentar. É preciso não pressioná-lo ainda mais. Ele pode não ser carismático, não ser um animal bonitinho, mas tem o seu papel relevante na natureza. Temos que aprender a respeitar”.

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