Utopias

Não sei vocês, mas eu sempre fui muito motivado pelas utopias, aquilo que, em geral, consideramos impossível, um misto de idílico e inalcançável – maldosamente falando, sonho de tolos. E o que um tolo pode propor diante de tantas boas ideias e iniciativas que envolvem questões como a reciclagem de resíduos? Qual seria a utopia?

 

Marcus Neves Fernandes

Na verdade, seriam duas…
E essa primeira utopia, esse meu primeiro sonho, é que o conceito da reciclagem esteja presente lá na prancheta do designer, no momento em que começa a nascer um novo produto, seja ele uma cadeira ou um computador. Aliás, em uma tonelada de placas de processadores há mais ouro do que em 17 toneladas de minério bruto. Já as placas de circuitos eletrônicos são 40 vezes mais ricas em cobre do que o próprio minério bruto do metal.
O problema, porém, é que computadores, assim como as cadeiras, automóveis, bicicletas ou até mesmo uma mamadeira, não nascem com o conceito da reciclagem. E isso torna qualquer método de reciclagem um verdadeiro pesadelo.
É o que constatou, na prática, a professora Neuci Bicov, da USP, em relação aos eletroeletrônicos. Após analisar centenas de hardwares, ela e sua equipe perceberam situações que beiravam o absurdo. Por vezes, por exemplo, o que poderia ser feito com um parafuso, como a fixação de determinada peça no chassi do computador, acabava sendo feito com vários parafusos, de diferentes modelos, que implicavam no uso de diferentes ferramentas.
Imagine uma linha de reciclagem de computadores, com centenas, por vezes milhares de máquinas, para ser minuciosamente desmontadas. Imagine o tempo que se perde para desmontá-las, separando peça por peça, muitas vezes, tendo que improvisar ferramentas?
Sim, há situações em que nem mesmo as ferramentas vendidas no mercado, como chaves de fenda, resolvem o problema. É o caso, por exemplo, de muitos produtos da Apple. No passado, a empresa norte-americana já foi objeto de ações na Justiça por vender aparelhos que não podiam ter a bateria trocada. Ou seja: ao final da vida útil, só restava o descarte – e, obviamente -, a compra por um novo, cujo único eventual defeito era a bateria descarregada.
Vale notar que a empresa chegou a criar até mesmo um novo tipo próprio de parafuso, único no mercado, para o qual simplesmente não havia chave de fenda! É uma clara dissociação entre a empresa, o consumidor, a reciclagem e a qualidade de vida. É a empresa, pela empresa. E o resto indo para o abismo.
Isso precisa mudar. Nenhum produto pode chegar ao mercado sem que o conceito e os princípios da reciclagem façam parte da engenharia envolvida na sua criação.

 

lixo zero
Por isso mesmo, a minha segunda proposta de utopia talvez seja ainda mais desafiadora – e eu, por tabela, quem sabe ainda mais tolo. E essa utopia eu posso resumir em duas palavras: lixo zero. Talvez, a maioria dos leitores nem consiga imaginar uma sociedade que não gere lixo. Por vezes, nem eu mesmo.
Mas algumas instigantes propostas estão surgindo. Em Seul, na Coreia do Sul, um bairro inteiro, com uma população semelhante à de Santos, já vivencia essa nova realidade. Lá, as lixeiras só se abrem com um cartão magnético, e o cidadão que coleta o lixo utiliza uma pistola para leitura de código de barras.
O objetivo declarado desse sistema é o lixo-zero e como o cidadão paga multa se ultrapassar um limite de peso pré-estabelecido para descarte de resíduos, já foi possível perceber algumas curiosas consequências. Uma delas, talvez a mais notável, é a diminuição do desperdício. É que, ao ir ao supermercado, a dona de casa coreana está se acostumando a levar para casa o estritamente necessário. Ou seja, agora, a preocupação com o descarte dos resíduos começa lá no momento da compra, e não mais em casa.
Pode parecer algo simples, mas não é. Implica em mudar comportamentos, ter um cotidiano melhor planejado, chamar para si a responsabilidade com o descarte e não esperar, nem tampouco acreditar, que o Poder Público, sozinho, irá resolver a questão.
Por isso, quando eu pergunto se, ao ir ao supermercado, a pessoa faz suas compras já pensando no que irá para o lixo, todos, praticamente sem exceção, me olham com cara de espanto.
É o mesmo que dizer que o correto não é aumentar a periodicidade da coleta de lixo, e sim diminuí-la! Afinal, uma sociedade supostamente desenvolvida é aquela que gera cada vez menos resíduos e não aquela que tem uma coleta de porta-em-porta, todos os dias.
Pense nisso na próxima vez que for ao supermercado; pense em quanto do que você está levando para casa terá como destino o aterro sanitário. Faça a diferença. O menos, é mais.

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