Uma sociedade do bem e para o bem

Em Santos, há muitos prédios que chamam atenção pela beleza arquitetônica, pela suntuosidade, ou pela representatividade histórica. Um deles, em particular, reúne todas estas qualidades e mais uma: ajudar o próximo

Luciana Sotelo

A Sociedade Portuguesa de Beneficência tem, na fachada, a elegância de um palacete no estilo neoclássico; na origem, o privilégio de ter nascido para ajudar o próximo e, na bagagem, mais de cento e cinquenta anos de existência. A partir de agora, vamos adentrar essa casa, que é referência em atendimento médico e hospitalar na Baixada Santista, e está sempre de portas abertas para praticar o exercício da medicina humanizada. Sem falar nos atrativos que possui, como uma capela e uma das maiores áreas verdes do centro urbano da cidade, com espécies de plantas e árvores típicas da Mata Atlântica.
Para chegar às características atuais, e entender como funciona essa engrenagem que, atualmente, atende mais de 200 pacientes diariamente, só no pronto-socorro, é preciso voltar no tempo. Tudo começou em 21 de agosto de 1859. Poucos sabem, mas a ideia inicial não era criar um hospital. Alguns portugueses, liderados por José Joaquim de Souza Airam Martins, reuniram-se para fundar uma instituição que desse amparo aos imigrantes vindos de Portugal, que, na época, chegavam à região pela facilidade oferecida pelo porto. “Eles viviam perambulando pelas ruas. Não tinham qualificação. Era fornecida uma espécie de assistência através de alimentos, emprego, moradia, entre outras necessidades. Foi dessa forma que a Beneficência iniciou, com caráter assistencialista”, explica o atual presidente da casa, Ademir Pestana, um brasileiro de origem lusitana.
Entretanto, nove anos se passaram, e a proposta teve que ser mudada em função das constantes epidemias que começaram a assolar a região, como febre amarela, varíola, malária, tuberculose e a temida peste bubônica. Assim, em 12 de abril de 1868, a Sociedade recebeu do português Antônio Ferreira da Silva e de sua mulher Maria Luísa Ferreira da Silva, um terreno para a construção de um hospital que atendesse a todos, independentemente da origem.
Localizado no bairro do Paquetá, entre as ruas das Flores (atual Amador Bueno) e do Rosário (hoje, João Pessoa), o prédio foi inaugurado dez anos depois, em 6 de janeiro de 1878, devido a dificuldades financeiras.
Nessa época, a história do hospital estava apenas começando. Após 48 anos de funcionamento, alguns fatores ocorreram, tornando inadequada a permanência da entidade no local. Entre os principais, destaque para as constantes obras de expansão dos armazéns portuários, a forte umidade e a existência de uma unidade que recolhia as vítimas de varíola. A área, inclusive, era conhecida como dos “bexiguentos”.
Se, hoje, a Sociedade de Beneficência conta com 205 leitos (38 de UTI), 17 consultórios, cinco UTIs, pronto-socorro e mais de 300 médicos credenciados, a mudança de sede foi decisiva e a iniciativa do sócio benemérito Antônio Marques Bento de Souza, imprescindível. Ele sugeriu que o terreno fosse adquirido pelos portugueses residentes em Santos. Ele mesmo fez a doação de uma grande quantia. A campanha contou com a participação de empresas nacionais e estrangeiras e também de bancos, todos instalados no município. Com a verba, foi adquirida uma quadra de frente para a avenida Bernardino de Campos (canal 2) e as obras foram iniciadas de imediato. Em 5 de outubro de 1922, lançou-se a pedra fundamental da construção e, quatro anos depois, em 1º de dezembro de 1926, o prédio ganhou vida, literalmente. Nascia o hospital Santo Antônio, numa área total de 45 mil metros quadrados.
O complexo é rodeado por jardins contemplativos e conta ainda com um núcleo infantil para os filhos dos funcionários, que hoje somam 857 colaboradores, além de serviço de luto (velório) e uma bela capela.
Dizem que, quem nasce grande, não pode parar, e foi preciso acompanhar o crescimento da população. Espaço não faltava e o desafio chegou na década de 1990, como conta Pestana: “Inauguramos uma nova unidade, o Hospital Santa Clara, anexo ao Hospital Santo Antônio. São sete andares, que englobam centro cirúrgico, as unidades de terapia intensiva e os apartamentos”.
Além de ter equipamentos modernos, de última geração, o grande diferencial da Beneficência é a caridade. O presidente orgulha-se em dizer que é o segundo maior hospital filantrópico da região. “A oferta ao Sistema Único de Saúde (SUS) é de 105 leitos, além de 10 vagas de UTI. Também somos credenciados pelo governo federal na área de oncologia, ofertamos quimioterapia, radioterapia e gama câmara (exame de cintilografia)”.
Para manter esses números, Pestana diz que não é fácil. “Se fizermos uma análise, 90% dos hospitais filantrópicos passam por muitas dificuldades e, aqui, não é diferente. Milagre não existe. Nós temos uma tabela do SUS que está, praticamente, dez anos sem alteração, fica difícil repor os custos. Procuramos contrabalancear essa equação com o atendimento particular e outros convênios para os demais 100 leitos existentes”.
Certa de que sua missão é dar conforto e saúde ao próximo, a Beneficência Portuguesa especializou-se em alguns setores, e trouxe, inclusive, benefícios pioneiros como a UTI cardiológica com acomodações individuais. “Trata-se de um apartamento, com direito a acompanhante. E neste mesmo andar, fica o serviço de hemodinâmica, um facilitador para que o paciente não precise se deslocar muito para realizar os exames”, destaca Pestana.
Com um leque bem amplo, atendendo cerca de 50 especialidades, com alta complexidade nas áreas de cirurgia vascular, tórax, urologia, gastroenterologia, cabeça, pescoço e implantação de marca-passo, a Beneficência é padrão de referência nos setores de oncologia e cardiologia, garante o presidente.
Além disso, presta serviços de oftalmologia (consultas, exames e cirurgias); medicina nuclear, com os mais modernos equipamentos para a realização de exames diversos, especialmente de coração; ortopedia; medicina vascular; diagnóstico de imagens; entre outros.
O hospital possui uma demanda anual de cerca de 10 mil internações e, aproximadamente, 58 mil atendimentos no pronto-socorro. Com todo esse know how, há ainda mais uma grande conquista, salienta Pestana. “Trata-se da nossa câmara hiperbárica multiplace, para seis pacientes. Somos o primeiro hospital, e único da região, a dispor desse serviço”.
Não basta que os serviços sejam prestados, e que os equipamentos sejam de última geração, se não existir uma relação sincera e respeitosa entre médico e paciente. Com essas palavras, o doutor Mário Cardoso, diretor técnico do hospital, define o seu maior orgulho: o trabalho de humanização do atendimento. “O médico e paciente não estavam mais falando a mesma língua. Foi então que fundei a Clínica Médica, porque não existia essa organização, que se tornou a terceira sociedade de especialidade no Brasil, buscando resgatar essa relação tão necessária”.
Entusiasta, Mario tem verdadeira paixão pelo hospital e pela medicina. “Eu nasci aqui, me formei, vim ser residente. Em 1975, criei o primeiro pronto-socorro particular. Mais tarde, passei a ser o chefe de serviço de clínica médica, depois, diretor clínico, e acabei sendo eleito presidente da Associação dos Médicos de Santos e da Associação Médica Brasileira, única vez que alguém, que não era da capital, foi presidente. Trabalhar como médico é a minha vida”.
E como se não bastasse tanta dedicação, foi na extinta maternidade do Hospital da Beneficência que ele teve uma das maiores emoções de sua vida: o nascimento da filha. “Até hoje, eu lembro desse momento tão especial e emocionante, inclusive, do abraço do meu pai. Pra nunca mais esquecer”.
Com tantas experiências a relatar, o médico se emociona, respira fundo e detalha o cronograma criado para tornar a permanência das pessoas no hospital um pouco mais agradável. O projeto social de humanização, assim intitulado, tem várias vertentes e compreende diferentes ações: pet terapia, música, balé, animação, cinema, leitura, poesia, cursos, palestras e muito mais. O diretor explica que as atividades estão sendo implantadas gradativamente.
Mario aponta os resultados positivos da pet terapia não apenas para pacientes, mas para todos os envolvidos no atendimento médico-hospitalar. “Esses seres (animais) têm a capacidade que, nós médicos, seres humanos, não temos, mesmo aqueles cuja capacidade profissional extrapola o conhecimento, para ouvir e acalmar. Hoje não há como abrir mão do trabalho traduzido em carinho desses cães, e a presença deles, aqui na Beneficência, já se torna uma necessidade, aliando conhecimento não apenas para o tratamento físico, mas também emocional”.
A chefe do Serviço de Enfermagem Adriana Ferreira fez um relato da primeira visita dos cães ao Hospital Santo Antônio, citando dois casos em que os animais foram capazes de confortar aos que, no desalento da dor ou da desesperança, fecharam-se no sofrimento: “Um deles, um paciente que não se comunicava, não esboçava reação, se manifestou através das mãos no afago ao animal e, outro, uma paciente que abriu os olhos pela primeira vez desde que fora internada”.
Depoimentos como esses só fazem crescer a vontade de humanizar ainda mais o serviço. “Tratar o doente como gente é uma obrigação que só pode ter um resultado: a troca de carinho. Eu cheguei a ter doentes com mais de 100 anos, alguns me abraçavam com mais carinho do que abraçavam os próprios filhos. Isso é muito gratificante”, revela Mario.
A primeira fase do programa conta com a parceria de Isabela Procópio (bailarina clássica); Daniel Ribeiro (flautista); ONG Cão Amor (pet terapia); Tchau Dodói (clowns de hospitais); e a produtora Spectra Filme, com o projeto Martins Fontes. Na segunda etapa, serão incluídas as atividades de leitura e poesia. Em paralelo, já está em fase experimental a vertente destinada aos funcionários, que engloba aprimoramento, cultura, memória do trabalho e preservação do patrimônio histórico do hospital.

Sublime área verde
A valorização de áreas verdes é um assunto bem atual, mas, na Beneficência Portuguesa, o conceito é bem mais antigo. Por aqui, a natureza é usada a favor da qualidade de vida dos pacientes e seus familiares. Afinal, quem disse que hospital tem que ser triste e sombrio? A ideia é oferecer um jardim contemplativo; não há nada melhor que observar o meio ambiente para obter tranquilidade e relaxamento. Com o canto dos pássaros, o cenário fica ainda mais completo.
Noemi de Macedo, assessora de comunicação do hospital, diz: “O principal jardim é considerado uma entre as maiores áreas verdes no perímetro urbano de Santos, com diferentes espécies arbóreas, algumas em extinção, caso do pé de canela. No jardim principal, vivem cerca de 40 espécies diferentes de pássaros, de acordo com uma pesquisa feita em 2006. Por ter arborização alta, o jardim é rota de gaviões, especialmente, para a construção de ninhos dessas aves, cujo casal permanece no local até que os filhotes estejam aptos ao voo longo”.
De acordo com o levantamento da ornitóloga Sandra Pardin Pivelli, do Jardim Botânico Chico Mendes, entre os visitantes ilustres estão a andorinha; andorinhão; anu; arapuçu de cerrado; bem-te-vi; beija-flor; bico-de-lacre; cambacica; canário; coleirinha; curruíra; freirinha; juruviara; martim-francisco;sabiás; saíra; sanhaçu; suiriri; pardal; periquito; rolinhas; tico-tico; tié-preto; e tuim.
Lições de amor e dedicação
Não dá para falar em saúde e cuidados especiais sem dedicar um capítulo a um grupo especial de mulheres que, todos os dias, está nos corredores da Beneficência a espalhar amor, doação e dedicação aos mais necessitados.
Elas são as gassianas e fazem parte do Gassas – Grupo de Ação Social Santo Antônio -, formado em 1975 para prestar auxílio físico, afetivo e até material aos pacientes internados. Com o lema “fazer o bem sem olhar a quem”, elas representam, hoje, 46 voluntárias com acesso a todas as alas, e trabalham de segunda a sexta-feira, das 8h às 17 horas, segundo Deusa Adeyl Batista, atual presidente do grupo, voluntária há 15 anos.
As gassianas servem as refeições a quem não consegue se alimentar sozinho, e também fazem campanhas para doação de fraldas e materiais de higiene pessoal. Além da parte convencional, oferecem o que têm de melhor: o amor e a atenção ao próximo, garante Deusa.
“Conversamos com os pacientes, olho no olho, acolhemos, fazemos leitura para os que querem, fazemos ligações para a família deles, levamos revistas e procuramos dar todo carinho que cada um merece. A melhor coisa que tem na vida não é ser servida, é servir”.
Deusa chegou à instituição após uma grande e irreparável dor: a perda de um filho. Hoje, ela sabe que não foi por acaso que começou a ser uma gassiana. “Eu sempre reclamei muito das coisas. Quando cheguei aqui, eu percebi que sou feliz, mesmo diante do meu sofrimento. Tem muita gente aqui que tem família e, mesmo assim, é esquecida por todos. Se não fossemos nós, estariam completamente abandonadas. Temos que ser gratos por essa missão de amor”.
Para fazer parte desse time, que está com inscrições abertas, basta ter amor no coração e dedicar, pelo menos, 12 horas mensais à causa. “A cada dia, eu aprendo um pouco mais, e agradeço a Deus pela oportunidade de estar aqui”.
As gassianas mantêm ainda um bazar permanente na própria instituição para angariar fundos. Lá são oferecidos artesanato em geral, brechó e uma boa conversa. Vale a pena conferir.

Espaços preservados
Você sabia que, em 2012, o palacete da Beneficência foi tombado pelo Condepasa (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos)? Sim, o prédio mantém suas características arquitetônicas preservadas, garantindo às futuras gerações uma das marcas mais importantes da origem portuguesa por aqui.
E nesse prédio tão emblemático, há, ainda, uma capela em homenagem a Santo Antônio, padroeiro da instituição. O espaço foi inaugurado em 1930, tem capacidade para 88 pessoas e possui imagens religiosas, vitrais, lustres e piso originais, trazidos de Portugal. No local, são realizadas missas aos domingos, às 9 horas, e toda última quarta-feira do mês, a Missa da Saúde, às 16 horas. Algumas dessas cerimônias religiosas já foram celebradas pelos bispos D. Jacyr Braido e D. Tarcísio Sacaramussa (atual bispo diocesano de Santos). De uma coisa a Beneficência não abre mão: seu passado. Parte dele pode ser conferida no acervo que a entidade preserva. Uma das peças mais apreciadas é o Livro de Visitas Ilustres, inaugurado pelo imperador D. Pedro II e assinado por diversas pessoas, integrantes das histórias brasileira e mundial, como os navegadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho, princesa Isabel; príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, e inúmeras autoridades civis e eclesiásticas.
Entre as preciosidades, despontam telas da fase retratista do pintor Benedicto Calixto, imagens religiosas, móveis do século XIX e utensílios do período da inauguração do primeiro hospital.

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