Uma luz contra o desmatamento

Dono da maior extensão de florestas tropicais do mundo, que abrigam a biodiversidade mais rica do planeta, o Brasil tem imensas dificuldades para fiscalizar esse patrimônio.  Em algumas situações, nem um batalhão de fiscais resolve. É o caso do corte ilegal de madeira. Como saber, apenas pelo aspecto visual, se o produto é mogno, andiroba, cedro ou curipixá? A solução é a luz.

 

Todos os seres vivos possuem elementos químicos característicos, que emitem distintos padrões de luz. Nossos olhos, porém, não têm como captar essas nuances. E é aí que entra em cena um grupo de pesquisadores do Serviço Florestal Brasileiro (FSB).

No Laboratório de Produtos Florestais, eles estão criando um banco de dados que funcionará como uma espécie de impressão digital de cada uma das principais espécies comerciais de árvores nativas.

Uma vez no campo, munidos de leitores eletrônicos, bastará que os fiscais apontem os equipamentos às toras para, em segundos, descobrir qual o tipo da madeira. O mogno, por exemplo, é uma espécie que tem o seu uso controlado em todo o mundo pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Silvestres (Cites).

No Brasil, só pode ser explorado mediante plano de manejo florestal para a redução de impactos e toda atividade econômica envolvendo a espécie é obrigatoriamente acompanhada pelo Comitê Técnico Científico, do qual participam centros de pesquisa, governo e ONGs.

Estima-se que antes dessas normas, utilizadas desde 2003, mais de 2 milhões de mognos tenham sido derrubados na Amazônia em 30 anos. Todavia, não apenas para a polícia, mas, principalmente, para quem trabalha com conservação, a grande questão é saber o quanto desse mogno é ‘gato’ e o quanto é ‘lebre’.

A dificuldade em distinguir as madeiras costuma exigir longo tempo de treinamento dos fiscais. E nem mesmo os mais experientes estão livres de dúvidas ou avaliações equivocadas. Pior: em um cenário de forte pressão, envolvendo necessidade de comprovação jurídica, nada melhor do que um diagnóstico irrefutável.

Por isso, pela primeira vez no mundo, os cientistas brasileiros desenvolveram um método que mede a absorção de energia luminosa para madeiras tropicais.

Hoje, sistemas semelhantes já são usados para identificar adulterações em produtos que vão do café ao etanol. Para isso, identifica-se o padrão de luz correspondente e compara-se com uma amostra. Se a curva de luz não for idêntica, está configurada a falsificação.

Os aparelhos para medição do espectro luminoso da madeira são portáteis, mas ainda importados. O custo, que já chegou a 20 mil euros por unidades, hoje está na faixa dos mil dólares por equipamento.

Fiscalizar a procedência da madeira também é uma responsabilidade do consumidor. Do contrário, mesmo que de forma involuntária, ele passa a ser ‘cúmplice’ no uso predatório das reservas brasileiras. Hoje, por exemplo, a maior parte dos produtos fabricados com madeira extraída de forma ilegal na Amazônia e em regiões como a Mata Atlântica é consumida no próprio país, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Porém, para chegar ao mercado, deixa atrás de si um rastro de destruição. A mata é invadida e as árvores de maior interesse comercial são cortadas. Em seguida, entram os tratores, que para alcançar as valiosas toras, derrubam tudo ao redor, sem qualquer planejamento, como se a floresta não tivesse valor algum. Mas existem alternativas.

A primeira, e melhor de todas, é adquirir a madeira ou produtos já acabados (portas, batentes, pisos, móveis etc.) que tenham o selo de certificação de origem, como o do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil – foto).

O segredo está no termo ‘manejo florestal’. Nesse método, a área é mapeada e as árvores selecionadas de acordo com critérios que têm como objetivo manter a saúde da floresta. Todo o processo é acompanhado por peritos.

Outra opção é a madeira de reflorestamento. Nesse caso, estamos falando de pinus (23%) ou eucalipto (77%). O plantio e administração da área também são certificados. Porém, há especialistas que afirmam que esse tipo de monocultura prejudica o solo e a biodiversidade.

Seja como for, tanto a certificada como a madeira de reflorestamento são alternativas ao alcance do consumidor. A primeira chega a ser, em média, até 20% mais cara. Mas enquanto o consumidor não exigir a certificação, o custo não cairá.

 

Assim tem sido no exterior, principalmente, na Europa. Tanto que 90% de toda a madeira certificada produzida no Brasil segue para exportação. Na prática, usar madeira ilegal é incentivar a ação daqueles que destroem o patrimônio público e sonegam impostos. Muitos estão envolvidos em grilagem de terra, expulsão e assassinato de moradores do campo.

O lucro da venda da madeira ilegal financia o desmatamento, que, por sua vez, abre as portas para a invasão, que facilita a abertura de estradas clandestinas, por meio das quais se atingem novas áreas virgens.

Segundo dados do próprio governo federal, dos 100 municípios com maiores índices de desflorestamento, 61 estão entre os que apresentam as maiores taxas de assassinatos no Brasil. Pense nisso.

 

Patrimônio em números

O Brasil é o segundo país com a maior extensão florestal do planeta, atrás apenas da Rússia. Hoje, são mais de 500 milhões de hectares de florestas naturais e plantadas, o que equivale a 60,7% do território nacional, de acordo com dados do Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Além da riqueza vegetal, há toda uma biodiversidade que está intimamente relacionada à conservação da mata. É por isso que o país possui alguns dos biomas mais ricos do mundo, tais como a Amazônia, a caatinga, o cerrado, o pantanal e a Mata Atlântica. Juntos, eles concentram mais de 20% do número total de espécies do mundo. Somente a Amazônia responde por cerca de 30% das florestas tropicais remanescentes na Terra.

 

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