Uma árvore no caminho

Apesar de todos os benefícios comprovados que proporcionam às área urbanas, muitos não enxergam o valor de tê-las por perto 

É, no mínimo, estranha, a relação de algumas pessoas com o pouco de natureza que existe nas áreas urbanas das cidades. No relato que segue, alterei apenas os nomes, visando não constranger os personagens. O restante é fato. O caso aconteceu há poucos dias, quando pude acompanhar a vistoria feita em uma árvore por dois engenheiros agrônomos da prefeitura de Santos.

A vistoria foi solicitada por duas moradoras. No local, uma árvore de grande porte, com uma grande copa. De acordo com os agrônomos, a árvore está no local há mais de 80 anos e, inclusive, dá nome ao prédio residencial localizado bem em frente, prédio este construído há pouco menos de 40 anos em uma das áreas mais valorizadas da cidade.

O pedido das moradoras era simples: retirar a árvore. O motivo? As raízes estariam quebrando canos e criando desníveis na calçada. “Alguém, um dia, vai acabar caindo aqui e vão nos processar”, previa uma das senhoras. Acostumados a tais queixas, os engenheiros propuseram uma série de alternativas, como a poda das raízes e da copa. Irredutíveis, as reclamantes insistiram que a presença daquela árvore, quase centenária, iria “desvalorizar os imóveis”.

Como já vi esse tipo de situação várias vezes, preferi guardar silêncio e me afastar, acompanhar de longe a penosa tarefa de tentar justificar a importância de manter uma árvore no espaço urbano. Aprendi que em certas situações, todos os melhores contra-argumentos deste mundo não são suficientes. E aquela era uma dessas situações. As duas senhoras se mantinham firmes no intuito de se verem livres do que entendiam ser um problema, um estorvo. A árvore tinha que sair – e rápido.

Mesmo assim, os agrônomos buscavam brechas para novos argumentos. Explicaram que as árvores, principalmente daquele porte e naquela localização, geravam inúmeros benefícios.

Diversos estudos científicos já demonstraram que em áreas bem arborizadas, há redução nos níveis de material particulado no ar, a popular fuligem. O nível de ruído das ruas é atenuado, assim como a temperatura, que se traduz em um menor uso de refrigeração artificial e consequente economia de energia. Há, inclusive, uma maior durabilidade da camada asfáltica da via, proporcionada pela sombra.

E mais: pesquisa feita na Universidade de São Paulo (USP) demonstrou que ruas arborizadas proporcionam até 20% de valorização imobiliária. E que nessas áreas, os índices de violência doméstica são menores, há mais socialização entre os vizinhos, menor necessidade de medicamentos, recuperação mais rápida dos enfermos, mudanças positivas no estado psicológico e fisiológico, diminuindo a pressão arterial e melhorando o funcionamento cognitivo e comportamental.

Todos esses e outros dados são corroborados por estudos semelhantes feitos em diversos países, estudos estes suficientes para que problemas como tubulações quebradas ou calçadas desniveladas sejam insignificantes.

Ocorre, porém, o inverso. E com um perverso detalhe: em vários casos, basta a equipe da prefeitura deixar o local para que a árvore seja vandalizada.

Coincidentemente (ou não), em 2014, um morador das imediações foi multado em R$ 12 mil. Ele primeiro tentou serrar três árvores do passeio público, após receber parecer contrário à remoção. Como não conseguiu matar os vegetais, perfurou os troncos e injetou veneno. Não contente, colocou mais veneno no berço das árvores. Coube aos funcionários públicos, depois de muitos esforços, salvá-las. Hoje, estão lá, provas-vivas da imbecilidade humana.

Bom, se você está curioso com o desfecho dessa história, adianto que o parecer técnico da prefeitura será no sentido de negar o corte da árvore, que, apesar de longeva, está plenamente saudável.

Mas esse pode não ser o fim do caso. Muitos, descontentes com esse tipo de resposta do poder público, recorrem às chamadas instâncias superiores, vão reclamar aos vereadores. E são poucos dentre estes edis aqueles que têm autonomia e coragem para manter o veto técnico e dizer não aos supostos eleitores. Afinal, nesse toma-lá-dá-cá de interesses, as árvores não votam.

Só posso dizer uma coisa para vocês: vou ficar de olho, nem que seja só nessa árvore, na esperança de que cada uma das árvores de cada espaço urbano desse país, possa ter alguém também olhando além das aparências.

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