Traço de uma arquitetura genial

O sonho de ter “uma casinha de Tarzan” proporcionou ao casal paulista uma das construções mais belas de Ubatuba

Maria Helena Pugliesi

Há cerca de 30 anos, o médico morador da capital deu de presente à mulher o terreno de 887,50 metros quadrados em frente ao mar verde-azulado da praia do Tenório. Depois de muito tempo sem uso, finalmente eles resolveram construir ali sua casa de veraneio. “Nosso refúgio de praia anterior foi engolido por edifícios. Aqui, minha mulher e eu poderíamos ter o oposto: ficar no alto, junto aos passarinhos”, revela o proprietário. Contagiado pelo entusiasmo dos clientes, o arquiteto Angelo Bucci propôs uma obra escultural e um tanto quanto audaciosa. O croqui rabiscado na lousa de seu escritório mostrava uma casa sustentada somente por três pilares de concreto, praticamente pendurada no ar, flutuando na copa das árvores, aberta para o oceano. “Eles compraram a ideia no ato. Daí só tive que me cercar de profissionais de primeira linha para realizar o impressionante projeto”, conta Angelo.
Distribuída em três blocos, cada um deles com dois andares, a casa mantém-se firme graças aos pilares, a tirantes metálicos que atravessam os volumes verticalmente e a vigas dispostas no topo da moradia. “Depois de pronta, um projetista suíço visitou a construção e ficou surpreso ao constatar que a estrutura não balançava, mesmo pulando lá dentro”, diverte-se o médico. Fugindo do convencional, a entrada principal, no nível da rua, é feita pela cobertura, onde fica a piscina. Por uma passarela, o visitante alcança a escada que conduz aos demais ambientes. Quem prefere chegar pela praia, tem que subir os 100 degraus escondidos pela vegetação. Abaixo da piscina ficam a churrasqueira e as dependências do caseiro. Um bloco intermediário sobrepõe cozinha e living aos três quartos de hóspedes. A suíte do casal fica voltada para o mar. Neste cômodo, um engenhoso brise de madeira freijó regula a claridade. A peça, de 3m x10 m, é presa por cabos de aço que passam acima da laje e se ligam com roldanas a um contrapeso. O mecanismo permite içar o brise, projetando a sombra no terraço logo acima, o que deixa o quarto aberto à vista. Se a intenção for escurecer o dormitório, o contrapeso sobe e o quebra-sol desce.
O terreno, com 50% de aclive, 28 metros acima do nível da praia, tem sua encosta e a mata que o recobre protegidos pela legislação ambiental. A fim de preservar a beleza natural, para cada árvore retirada durante a obra, plantaram-se outras duas ou três. “A construção foi bastante trabalhosa, demorou e custou além do previsto… Mas, e o prazer de acordar e ter o mar assim, aos nossos pés?”, argumenta o proprietário. Apesar de espaço suficiente para receber os filhos e amigos, o casal costuma frequentar sozinho o litoral e não se arrepende um dia sequer da escolha do projeto. Afinal, vista por dentro ou por fora, a casa suspensa é uma belíssima obra-prima da arquitetura.

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