Prova de fogo

A maratona aquática mais longa do país, a Travessia 14 Bis, desafia limites e comemora 50 edições

Luciana Sotelo

Praticada desde a Grécia Antiga, e também pelos romanos, a natação existe há milênios. O hábito de nadar é considerado um dos mais completos para o desenvolvimento físico e, no Brasil, é o quarto esporte mais praticado. E quando se fala na modalidade, todo mundo pensa numa bela piscina, com águas calmas e nenhum obstáculo pela frente. Mas, em tempos idos, as competições ocorriam em mar aberto, ambiente no qual surgiu também o desejo no homem de percorrer grandes distâncias a nado.
Nas maratonas aquáticas, as performances física e psicológica unem-se para dar força a cada braçada. Na 14 Bis, a mais longa e tradicional travessia do Brasil, esse entrosamento é fundamental. É preciso coragem e muita determinação para desbravar os 24 quilômetros dessa prova quase ‘cinquentona’, mas com fôlego de adolescente. Com 47 anos de existência e 50 edições realizadas, reúne todos os anos dezenas de apaixonados pelo esporte, com muita história para contar. A maratona deixou de ser realizada apenas em 1984. Por outro lado, em 1970/1992/1993 realizaram-se duas edições em cada um destes anos, daí ela ter 50 edições e 47 anos.
O longo percurso começa nas águas do canal de Bertioga, com largada no Forte São João e finaliza na rampa de acesso da Base Aérea de Santos, em Guarujá, no litoral de São Paulo. No caminho, correntezas, mudanças de temperatura, mangue, águas-vivas, cansaço e, sobretudo, a vontade de chegar e ultrapassar os próprios limites. Com tantos ingredientes, a 50ª edição reuniu número recorde de participantes, cerca de 300, entre atletas profissionais e amadores, como explica Percival Orlando Milani, organizador da 14 Bis e, também, presidente da Associação 14 Bis. “Se você somar os 294 participantes, nadando 24 quilômetros, você tem mais de 7.200 quilômetros nadados. É a maior metragem nadada em um único dia no Brasil”.
Mas ele diz que nem sempre foi assim. Iniciada em 1970, as primeiras edições reuniam bem poucos participantes. Na pioneira, por exemplo, foram apenas quatro. Criada pelo educador físico Mário Bello, a prova surgiu como uma espécie de desafio entre amigos. “Ele era funcionário da Aeronáutica e começou a observar que alguns bombeiros costumeiramente nadavam ali na região. Ele resolveu então fazer uma homenagem à Aeronáutica. Bello e mais três amigos fizeram a travessia, porém, só ele conseguiu terminar. Nos anos seguintes, fez da travessia um hábito, sem sequer imaginar que ela tomaria as proporções que tem hoje”, conta Percival.
Por ter coroado grandes nomes da modalidade, a prova funciona como uma vitrine de novos talentos, já que estamos falando de um esporte olímpico, classificado como tal a partir de 2005, com a primeira disputa realizada em 2008, em Pequim. “Ela também é uma espécie de trampolim para a travessia do canal da Mancha, desafio considerado o ‘Everest’ da natação”, explica.
Com um grande poder transformador, a 14 Bis atrai nadadores de todo país e até do exterior, todos em busca de um diferencial na vida. Foi assim com o próprio Percival, que, antes de começar a nadar, era mais um executivo estressado em busca de motivação para transformar sua vida. E ele encontrou: “Comecei a nadar e precisava de um bom estímulo. Foi então que passei a me preparar para a 14 Bis. Estava nadando há um ano e meio e fiz seis meses de treinamento específico para participar da competição, em 2001. Mesmo assim, foi insuficiente, cheguei um caco, mas peguei a terceira colocação na minha categoria. Dali em diante, você começa a almejar novas metas e provas ainda maiores. Assim, cheguei à travessia do canal da Mancha, muito mais complexo. Fui o nono brasileiro a completar a prova, em 2003, com 41 anos, na época o mais velho atleta não profissional. E tudo nasceu aqui, na 14 Bis. Hoje, 27 brasileiros conseguiram esse mesmo feito”.
Grato por esse novo caminho trilhado, em 2006, paralelo às competições, surgiu outro desafio: encarar a organização da prova, realizada até então apenas pela Aeronáutica. “A prova iria acabar. Foi então que o coronel da Base Aérea me pediu ajuda. Passei a me envolver de corpo e alma. Mas eu brinco, entrei de gaiato no navio!”.
A partir dos anos 1990, a 14 Bis tornou-se mais competitiva, com a participação de atletas de ponta e, consequentemente, mais cuidados na sua elaboração. Percival dá alguns exemplos: “Atualmente, é exigência a presença de um barco ou caiaque de apoio durante todo trajeto. Outro requisito obrigatório é o atestado técnico, emitido pelo técnico ou professor, declarando plenas condições do atleta em nadar todo o percurso. Futuramente, estamos pensando em implantar o rastreamento dos nadadores”.

Sem barreiras

A 14 Bis é uma prova desafiadora por natureza. Dura em média entre 6 a 8 horas (para quem não é atleta de ponta), mas pode chegar ao limite de 10 horas; pode ser praticada por interessados a partir dos 14 anos, sem restrição máxima de idade. Por isso, em 2017, das águas surgiu um grande exemplo de superação, com nome e sobrenome: Rufino Rodrigues de Oliveira, conhecido como tenente Rufino, 85 anos de muita saúde e disposição. Criador da Associação de Salva Vidas do Estado de São Paulo, esse senhor, amigo de Mario Bello, participou da prova, nadou mais de 20 quilômetros, em pouco mais de seis horas. “Tenho medalha e troféu de resistência. No caminho, fui queimado por águas vivas no braço e no rosto. Passei da ponte, mas, a poucos metros da chegada, não pude concluí-la. Mesmo assim, fiquei muito satisfeito em fazer parte dessa história. Considero a 14 Bis a prova dos nove; a pessoa que tem pretensão de participar de competições em águas abertas, e não participa da 14 Bis, não pode dizer que sabe nadar”, afirma Rufino.
Outra particularidade do bombeiro é ter convivido com Mario Bello, falecido no último dia 9 de outubro, aos 76 anos, uma amizade que começou na década de 1950, quando o idealizador da 14 Bis iniciava as tentativas de criar uma travessia entre os oficiais da Aeronáutica. “Se não fosse o meu amigo, nada disso existiria. Ele deu a vida e a sua mocidade por essa prova. Não tenho palavras suficientes para destacar a sua grandeza. Lembro com saudade da última vez que nadamos juntos, uma disputa de três quilômetros, em Ilhabela. Não lembro bem o ano, por volta de 2010 a 2012, mas lembro da felicidade dele em nadar”.

Trampolim para o canal da Mancha

Historiadores contam que, em 1875, o capitão inglês Matthew Webb tornou-se o primeiro homem a cruzar a nado o canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França. Ele completou a empreitada em 24 de agosto, após exaustivas 21 horas e 45 minutos de exercício, em um percurso de 64 quilômetros. A iniciativa serviu de inspiração para outros nadadores, até os dias de hoje, que passaram a percorrer a nado vários pontos do planeta.
Essa mesma paixão contagiou Marcelo Eduardo Teixeira, gerente comercial de um frigorífico na cidade de Boituva, interior paulista. Assim que começou a nadar, o canal da Mancha passou a ser um sonho possível de realizar, afinal, ele já trazia no currículo dois feitos grandiosos de superação: ter se livrado das drogas e ter concluído a 14 Bis. “Meu primeiro contato com a 14 Bis foi em agosto de 2003, quando comecei a nadar para estar ‘limpo’. Conheci duas moças que treinavam para a prova e fiquei louco de vontade de participar. Treinei o resto do ano e também o ano seguinte e fui fazer a travessia em novembro de 2004. Foi maravilhoso, a realização de um sonho”.
De lá para cá, ele já soma 13 participações, pois ficou fora em 2007, quando finalizava um curso de pós-graduação. “Já faz parte de um hábito que adquiri. Meu desenvolvimento na prova foi meu próprio crescimento como pessoa. Fui me preparando fisicamente e mentalmente para isso”. Tal experiência e motivação fizeram dele também um escritor. O livro Chegando a outra margem, recém lançado, retrata em detalhes os caminhos que o fizeram superar os dois maiores desafios: as drogas e a travessia do canal da Mancha. Ao driblar a dependência química, ele criou um lema. “A 14 Bis representa estar saudável, fazer coisas saudáveis perto de pessoas saudáveis. Um estilo de vida saudável. Isso trouxe inúmeras amizades para mim. Hoje, eu sinto que sou uma referência para as pessoas que estão começando. Isso não tem preço, é meu orgulho”.
Já sua conquista na travessia do canal da Mancha aconteceu na segunda tentativa. “Na primeira vez, depois de 7 horas e meia, já em alto mar e à noite, tendo vomitado mais de 15 vezes, eu senti que iria morrer, por isso, parei. Não conseguia nem subir as escadas de tão debilitado. Mas eu não me dei por vencido. Me preparei melhor e voltei lá depois de dois anos. Em 2016, conclui a prova em 14 horas, depois de nadar 52,9 quilômetros. Escrevo esse livro na intenção de passar minha experiência de vida adiante. Tenho a pretensão de levar essa sementinha a outros corações. Tudo é possível quando se tem um sonho”.

Episódios marcantes

No quesito superação de limites, Percival tem boas lembranças para retratar, seja com a participação de deficientes físicos, de mulheres e idosos: “Eu valorizo muito cada conquista que não venha só pelo pódio e, sim, pelo esforço de cada um. A gente vê, por exemplo, uma pessoa com deficiência, sem uma perna, subindo a rampa de chegada com dificuldade, mas ele conseguiu provar a si mesmo e a todos que é capaz de muita coisa”.
Quanto à participação feminina na prova, Percival afirma que vem aumentando, mas ainda não passa de 20% do total de inscritos. A produtora de vídeo Flavia Monteiro Takada, uma das responsáveis pela organização do evento, saiu do sedentarismo graças à vontade de nadar a 14 Bis. “Comecei com maratonas menores, fui buscando aumentar as distâncias até me sentir capaz de encarar a 14 Bis. Fiz a primeira prova em 7 horas e 40 minutos. Cheguei aos prantos porque é muito emocionante, quando você prova para você mesmo que pode”.
Desde então, ela já fez três participações, e seu melhor tempo foi 6 horas, em 2015. Afastada temporariamente por causa das obrigações com a organização da prova, ela diz que tem saudade de estar na água e enfatiza que, além da satisfação em concluir o percurso, o melhor de tudo é ultrapassar os homens. “Nós, mulheres, sempre comentamos isso. É muito bom”, explica Flavia, sorridente.

Recordista

O maior nome da história da 14 Bis é Glauco Rangel (foto), hoje professor especialista em natação e maratona aquática. Ele subiu ao lugar mais alto do pódio por sete vezes e, ainda, como vice-campeão, mais duas. Para o nadador, não existe fórmula secreta para tantas vitórias, o que ele acredita é na disciplina e na perseverança. “Essa prova ensina a gente a ter foco, vontade e a treinar duro. Ela te faz passar por provações que você leva para a sua vida toda. É uma prova apaixonante”. Nas suas façanhas, ele chegou a quebrar o recorde da prova por duas vezes. “Em 2011, tive um momento inesquecível. Eu, com 39 anos, consegui superar meu próprio recorde: nadei a travessia em 4 horas e meia. Eu abdiquei de muita coisa para conseguir essa marca e valeu a pena”.
Hoje, do lado de fora das piscinas, criou seu próprio método de treinamento. Glauco dá treinamento e assessoria técnica a outros nadadores, inclusive para a realização da 14 Bis. Mas, ele nos revela que pretende disputar novamente. “Eu vou voltar. Tenho plena convicção de que tenho condições de brigar pelas primeiras colocações”, emociona-se.

Edição nº 50

Nessa edição tão representativa, dois nomes fizeram a diferença no mar: No masculino, Artur Pedroza venceu a prova em 5 horas e 9 minutos. Ele veio de Resende, interior do Rio de Janeiro; já havia vencido a prova, em 2015, e, no ano passado, ficou com a 2ª colocação. Para ele, é primordial o treinamento constante. “São meses e meses de muita dedicação, sem afrouxar. E vencer significa coroar todo esse esforço”. Muito emocionado, ele completa: “Vencer essa prova representa que todo nosso esforço foi recompensado. A gente treina, trabalha, cuida dos filhos, de casa. É muita coisa que está em jogo”. Parte da conquista ele atribui a sua companheira, a barqueira Luciana Moreira Ferreira, jornalista, mas, nas horas de folga, dá todo seu apoio ao marido. “Formamos uma grande parceria”.
No feminino, o destaque ficou com Catarina Cucatti Ganzeli, que chegou com 5 horas e 22 minutos. A nadadora é de Campinas, mas mora em Santos, atualmente. Ela participou da prova pela segunda vez. Na primeira, 2008, ela tinha apenas 15 anos. Nadadora federada, já participou de grandes desafios, entre eles, a primeira edição do Super Challenge 10km, no circuito Rei e Rainha do Mar (em 2016, realizada no percurso olímpico, em Copacabana) na qual foi campeã, e, recentemente (março 2017), o Super Challenge 7km, também com a primeira colocação.
Na quarta maratona do ano, ela representou a seleção brasileira na Argentina e na Itália, nas provas do Grand Prix. “Minha primeira prova do ano foi de 57 quilômetros”. Mesmo com tamanha experiência, ela valorizou a 14 Bis e conseguiu sagrar-se campeã. “Com muito orgulho. Foi uma prova magnífica, eu vim muito concentrada e consegui vencer. Dedico aos meus pais, que vieram de Campinas para me ver, e ao meu namorado, que estava no barco de apoio”.

Homenagem merecida

Mário Bello, idealizador da prova, morreu no dia 9 de outubro último, aos 76 anos e, merecidamente, foi uma das personalidades homenageadas nessa edição comemorativa. Seus filhos estavam presentes e não conseguiram segurar a emoção. Beatriz Schlegel Bello, a filha mais velha, disse: “Eu acompanho a 14 Bis desde criança. Isso sempre mobilizou a nossa família, é história para a gente. Ver ainda hoje as pessoas tendo esse amor e vontade de vencer o canal é muito gostoso. É como se a história do meu pai continuasse através dessa paixão de todos”.

 

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