Peixes & plásticos

Marcus Neves Fernandes

Nos anos 1960, o mundo consumia, por ano, pouco menos de 10kg de peixe per capita. Trinta anos depois, já nos anos 1990, saltamos para quase 15kg per capita. E agora, em 2015, o consumo de pescado já ultrapassou a barreira dos 20kg, sendo que apenas os países industrializados consomem quase 27kg por habitante, boa parte importada dos países pobres, pois os mares setentrionais não são mais capazes de saciar o insaciável apetite de europeus e norte-americanos.
O alerta, que inclui uma previsão de colapso total dos principais estoques de peixes, antes de 2050, está em recente artigo publicado pelo professor Luiz Marques, livre-docente do Departamento de História da Unicamp, autor do livro Capitalismo e Colapso Ambiental.
Na verdade, apesar de assustadores, os números acima estão, muito provavelmente, abaixo da realidade. Quem alerta é a própria divulgadora dos dados, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
A organização salienta que esses números são fornecidos por governos e, muitos deles, estão interessados em ocultar o declínio de seus recursos, evitando, assim, que cotas máximas de pesca sejam estabelecidas. Em outras palavras: cerca de 13 empresas que dominam a pesca global não fornecem os dados corretos ou fazem lobby para que os dados corretos não sejam exigidos pelos governos – ou, ainda, ambas as situações.
O mesmo se pode verificar em diversos outros segmentos da economia: os cientistas e pesquisadores contestam os dados subnotificados da produção, chamam a atenção para o alarmante consumo dos recursos naturais e traçam terríveis previsões sobre os desdobramentos desse tipo de comportamento empresarial.
Mas esta é uma conversa em que só um lado fala. Há pouquíssimo eco na sociedade e uma verdadeira legião de surdos entre as corporações – o que não surpreende, levando em conta o poder do lobby que tende a dominar os mercados – que são tudo, menos autorreguláveis como sugere a vã filosofia dos economistas e exemplos concretos como a já histórica quebradeira mundial de 2008.
Esse tipo de ‘comportamento de precipício’, em que nada será feito até que estejamos à beira do cadafalso, procura não só se espalhar, como um vírus, como ainda demonstra ser capaz de proezas no mínimo inusitadas. Quer um exemplo? Lá vai.
Todos nós já presenciamos o surgimento de leis, aqui e no exterior, que tinham como objetivo, por exemplo, o banimento das sacolinhas de supermercado ou a sua substituição pelas chamadas biodegradáveis ou compostáveis. Agora, nos Estados Unidos da era Trump, surgem leis que têm o objetivo inverso: proibir qualquer tentativa de proibir a venda de artigos plásticos.
De acordo com recente artigo do insuspeito Wall Street Journal, ficamos sabendo que “a escala do investimento do setor (plástico) é surpreendente: US$ 185 bilhões em novos projetos petroquímicos dos EUA estão em construção ou planejamento… O novo investimento irá estabelecer os EUA como um importante exportador de plástico e reduzir o déficit comercial, dizem os economistas. O American Chemistry Council prevê que irá adicionar US$ 294 bilhões à produção econômica dos EUA e 462 mil empregos diretos e indiretos até 2025, embora os analistas digam que o emprego direto nas plantas será limitado devido à automação”.
Nesta altura do campeonato, só mesmo retomando o artigo do professor Luiz Marques. Diz o mestre: “Mais da metade das grandes metrópoles do mundo são costeiras. O mar que as inundará periodicamente ao longo da segunda metade do século será, como visto, um mar sem peixes. Mas ele se terá transformado, em contrapartida, em depósito de lixo da civilização industrial, com dominância de plásticos, poluentes orgânicos persistentes (POPs), metais pesados, metilmercúrio, nitrogênio e resíduos sólidos urbanos (RSU)”.

Nunca antes

Em maio último, o governo federal e o Congresso Nacional (com representantes aqui de nossa região) entregaram à grilagem e ao desmatamento uma área equivalente à do Distrito Federal em florestas na Amazônia e na Mata Atlântica. Tudo isso em decorrência das Medidas Provisórias nºs 756 e 758, que desprotegem uma área de 597 mil quilômetros quadrados. Chamo atenção para um absurdo detalhe: essas áreas faziam parte de duas unidades de conservação, uma no Pará e uma em Santa Catarina. Nunca antes na história deste país uma área tão grande de parques e florestas nacionais havia sido cortada – e por iniciativa do próprio presidente (?) da República e de seus ministros, que propuseram as MPs. O Congresso, que tem 30% de seus membros eleitos com ajuda da JBS, encarregou-se de piorá-las. Só para lembrar: a devastação cresceu 60% na Amazônia, em 2015 e 2016, e deve aumentar também em 2017. O velho Brasil das queimadas, do trabalho escravo e da violência no campo está mais forte e inconsequente do que jamais esteve. (Fonte: Observatório do Clima).

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