O mundo cor de rosa sobre duas rodas

É cada vez maior o número de mulheres no comando de motocicletas nas cidades e nas estradas. Da garupa para o banco da frente, elas se sentem livres e realizadas

Gisela Bello

Amélia, Andrea, Fernanda, Lucia, Raquel, Regina… Todas são unânimes em dizer que o sentimento de liberdade, quando estão no controle de uma motocicleta, é indescritível. Além de ser um veículo de locomoção mais fácil de estacionar e econômico, sentem-se mais confiantes, felizes, e isso, para elas, não tem preço.
Um estudo encomendado pela Harley-Davidson dos Estados Unidos, conduzido pela empresa Kelton, especializada em pesquisa de mercado, aponta justamente isso, que as mulheres motociclistas de lá também se sentem mais felizes, confiantes e até mais sexy do que as mulheres que não pilotam. A pesquisa contou com a participação de 1.013 mulheres que dirigem motos, e outras 1.106, que não dirigem, todas com idade acima de 18 anos. Além dessas constatações, o estudo revelou que 75% delas acreditam que suas vidas mudaram para melhor depois que começaram a andar sobre duas rodas.
Ricardo Vilela, proprietário da loja Harley-Davidson há quase quatro anos, na cidade de Santos, tem percebido o aumento no número de mulheres que compram motocicletas em sua loja: “No mundo Harley, as pessoas acham que o universo é totalmente masculino, mas isso vem sendo desmistificado. Ao longo desses anos, o crescimento das mulheres que escolhem uma Harley foi de 10%. Elas começam pilotando motocicletas de baixa cilindrada e depois partem para as maiores e, geralmente, escolhem a cor branca ou uma cor diferente, com detalhes que chamem a atenção”, explica Vilela.
E foi pensando em inserir cada vez mais mulheres neste universo que a médica cardiologista Fernanda Rodrigues Fernandes aceitou ser a representante do grupo Ladies of Harley, em Santos. Ela, que vem de uma família de motociclistas, começou a pilotar uma XL 125 aos 14 anos; ficou alguns anos sem dirigir motos, reaprendeu e comprou sua primeira H-D aos 34, e desde então, não parou mais de sentir o vento no rosto e a deliciosa sensação de liberdade. “Seja qual for o desafio na vida eu sei que posso tentar e vencer. E mesmo que eu caia, eu vou ter outra chance de levantar. Sou dona das minhas escolhas e é como enxergo a minha vida na prática”, relata Fernanda. Com esse espírito de vencedora, a cardiologista representa as quase cinquenta mulheres do grupo Ladies of Harley.
Mas Fernanda não está sozinha na busca por novas adeptas. A representante de vendas de produtos farmacêuticos, Raquel Gaspar Mayr, recebeu o convite da diretoria no início do ano, para, junto com Fernanda, representar esse time de mulheres corajosas e destemidas, e afirma que toda essa movimentação é um reflexo do poder e do avanço feminino. “Nós temos essa força, essa determinação, e aqui temos histórias lindas de superação e sonhos realizados”, declara Raquel, que herdou do pai esse gosto pelo motociclismo. Aos nove anos, já brincava com uma moto Honda Setentinha e, aos 14, ganhou uma moto Jóquei vermelha, da Yamaha.
A cirurgiã-dentista Andrea Falino é uma das mais recentes integrantes do grupo e viu seu sonho ser concretizado há poucos meses. Desde os 14, sonhava em ter sua própria moto. O avô materno era piloto de motovelocidade e o tio, motociclista, sempre a inspiraram. Mas sem o apoio de outros familiares, viu seu desejo engavetado durante longos anos. Porém, tudo começou a mudar em março desse ano, depois que amigos a incentivaram a colocar em prática o que mais queria.
Para Amélia Ribeiro, a paixão por esse estilo de vida veio só há dois anos, por influência do marido, que lhe deu de presente sua H-D. Trabalhando no setor administrativo de uma empresa, ela conta que os fins de semana são sempre esperados para viajar com o companheiro e os amigos. “Adoro pilotar na estrada, ver a paisagem. Lembro-me de um evento do H.O.G Rally, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em que participamos, e a cidade estava lotada de motociclistas. No dia em que fomos embora, os moradores fizeram um corredor para as motos passarem e se despediam acenando. Chorei de emoção. Só quem vive essa experiência sabe o que estou falando”, recorda.
O casal de médicos Regina Lopes e José Sampaio Lopes também aproveita para viajar nas horas de folga. Com a vida agitada que levam, ela psiquiatra e, ele, intensivista, entre um plantão e outro, não pensam duas vezes e saem, cada um em sua moto, para curtir a estrada e conhecer novas cidades. A paixão por motocicleta veio da Regina, que, desde pequena, sonhava em ter uma Harley. Mas, o sonho só virou realidade em 2013 quando ganhou do marido o modelo que queria. E ele, para acompanhá-la em seus passeios, não pensou duas vezes: tirou carta e comprou uma também. “Acabei criando um monstro em casa. Porque, quando chove, é ele quem fica mal-humorado de não podermos viajar”, conta brincando Regina.

Habilitadas para a aventura
Segundo o Detran-SP, no estado, o aumento de mulheres que procuram habilitação na categoria A (moto) foi de quase 5% nos últimos dois anos. Em 2015, foram 7.375 novas condutoras, já em 2016, o número subiu para 7.694. Na Baixada Santista, as cidades do Guarujá e Peruíbe lideram o ranking das nove cidades nas quais houve o crescimento de habilitações femininas nessa categoria. Em 2015, no município de Peruíbe, foram 16 e, em 2016, o número subiu para 27. Já no Guarujá, em 2015 foram 121 carteiras tiradas e, em 2016, pulou para 174. O aumento também é sentido pela Abraciclo – Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares. A participação feminina subiu 5% em dois anos, de 2013 para 2015, segundo a entidade.

Crescimento do mercado
As oficinas especializadas em peças, acessórios e serviços de motocicletas também já sentem o crescimento feminino nesse segmento. Vitor Forte trabalha nessa área há 39 anos e conta que, nos últimos dez, viu o número das suas clientes aumentar 20%. Ele acredita que alguns fatores tenham sido decisivos: “As fábricas apostaram em cores mais femininas, e a facilidade de ir e vir ajudou nesse aumento”.
A Dog’s Garage também sentiu o crescimento delas no comando de suas máquinas. Angelo Marini, um apaixonado por motocicletas, vive nesse mundo há trinta anos e realizou, há três, o sonho, junto com seu sócio, de abrir a oficina. Ele diz que, das dez motos que entram na oficina, três são de mulheres e que todas as motocicletas femininas têm a personalidade da dona.
Lucia Helena Macchione, mulher de Marini, dá algumas dicas importantes na hora da pilotagem na estrada: “Nada de salto alto; numa queda, pode entortar o pé; não usar tênis em dias de chuva porque escorrega; usar roupas com proteção e bota adequada; evitar acessórios como brincos e correntes. Caso ocorra uma queda, a pessoa estará mais protegida”. Lúcia, assim como o marido, é uma apaixonada por motocicletas. Começou a pilotar aos 19 anos uma moto cross 125 cilindradas, mas, ao longo dos anos, foi mudando o estilo e adquirindo outros hábitos. “Gostava de alta velocidade, mas, depois comecei a querer admirar a paisagem na estrada e a sentir outras emoções”. Ela recomenda para as iniciantes os cursos de pilotagem: “Obtive vários conhecimentos, técnicas e limites de até aonde poderia chegar com cada moto que tenho”, esclarece Lúcia, que hoje tem na garagem três belas motocicletas.
Outro serviço que percebeu o aumento da ala feminina na pilotagem de motos foi o de seguros. Rodrigo Martins, da RGMS Seguros, está no mercado há quinze anos e confirma esse crescimento do setor: “Atualmente, 30% dos meus clientes são mulheres. Elas são mais cuidadosas e estão mais preocupadas em relação à assistência e cobertura do que os homens”.
Cynthia Regina de Almeida, gerente da Auto Moto Escola Rallye, em Santos, trabalha há trinta anos no local e destaca alguns pontos sobre esse crescimento: “A mulher adquiriu sua liberdade financeira e trabalha fora. A economia também influencia na questão”. Segundo Cynthia, o aumento acontece de cinco anos para cá e, só nesse semestre, foi de 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
Vanessa Dias foi contratada, há quatro anos, pela autoescola graças à maior demanda. Ela conta que trabalha nessa profissão há oito anos e adora o que faz; diz que não apenas a ala feminina prefere ter aula com uma mulher: “Tenho muitos alunos que também gostam de ter aula comigo. Eles dizem que sentem mais confiança e que somos mais cuidadosas.” Vanessa revela que muitos alunos são jovens, na faixa dos dezoito anos, mas que tem aumentando muito a procura da turma dos 40 aos 55 anos.

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