O gambá sem floresta

Saruê, sarigueia, mucura, ou timbu. Muitos nomes, um mesmo animal, que  luta para conseguir alimento no meio urbano

Luciana Sotelo

“Essa colheita foi saruê”. No Nordeste, este termo significa espiga de poucos grãos; Viagem a São Saruê é um cordel famoso, escrito por Manoel Camilo dos Santos. Tem também o personagem de Antônio Fagundes, em Velho Chico, o coronel Saruê, que trouxe esse nome estranho novamente para a vida das pessoas. Mas o saruê abordado nesta matéria é, na verdade, um “sem floresta”. Trata-se de um gambá que, na vida real, luta para conseguir alimento no meio urbano, por ser vítima do crescimento mal planejado do ser humano que, pouco a pouco, destrói o seu habitat. E nem sempre essa história tem um final feliz.
Parente do canguru, o mamífero é conhecido por vários nomes. Na Bahia, o chamam de sarigueia; na Amazônia, é o mucura; e timbu, em Pernambuco. Já sua denominação científica é mais complicada: Didelphis Aurita, que significa gambá de orelha preta. Com peso médio de 1.800kg, e 65 a 95 centímetros de comprimento (da ponta da calda ao focinho), esse pequeno animal é envolto por mitos e curiosidades. Então, a partir de agora, vamos desvendar alguns desses mistérios.
Quando se fala em gambá, a primeira coisa que vem à mente é o cheiro ruim que eles exalam, certo? Como nos desenhos animados, paira no ar aquela nuvenzinha indesejada. Mas, com o nosso personagem isso não ocorre. De acordo com o veterinário e biólogo Nereston Josias Camargo, médico veterinário do Centro de Triagem e Pesquisa de Animais Selvagens – o Ceptas Unimonte -, quem expele o líquido fétido é o cangambá, que ocorre no Serrado brasileiro. “O saruê, assim como outros animais selvagens, possui uma glândula de odor como uma característica de defesa. Ele a expele em situação de estresse ou quando se sente acuado. Mas o cheiro não é como o outro, é mais ameno”.
Embora se pareça mais com um rato, você deve estar se perguntando o que o saruê tem em comum com o canguru. Esse parentesco, que parece pouco provável, decorre de ambos serem marsupiais, ou seja, são animais mamíferos que carregam e amamentam os filhotes em uma bolsa externa, situada na região abdominal. “A gestação da fêmea é curta, praticamente 13 dias e, consequentemente, os filhotes nascem mal formados. Por causa disso, passam alguns meses na bolsa da mãe para se desenvolver”, explica Camargo.

Imunidade que garante a vida
Com paladar diversificado, os saruês são classificados como onívoros, alimentam-se tanto de vegetais como de animais, possuem organismo adaptado para digerir estes alimentos e, entre as iguarias que apreciam, estão as serpentes peçonhentas. Segundo Nereston, “a espécie possui uma proteína que imuniza o veneno, portanto, tem papel importante no ecossistema; os saruês são ótimos controladores de pragas”.
Essa substância chama-se proteína LTNF (sigla em inglês para fator de neutralização de toxinas letais), que os torna imunes não apenas ao veneno de cobras como também de abelhas e escorpiões. E funciona como diz o nome: o veneno é detectado no corpo pela proteína, que o neutraliza. O gambá é imune não só às serpentes locais, mas até a serpentes de outros continentes, com as quais nunca teve contato.
Infelizmente, nos dias atuais, os saruês são cada vez mais vistos aqui na Baixada Santista. E isso tem uma explicação. O grande vilão é o homem que desmata as florestas, incansavelmente. “Eles são atraídos para a nossa região, que é muito arborizada, por não terem alimento”, diz o médico veterinário. Com hábitos noturnos, eles descem das árvores em busca de comida ao cair da tarde, e é comum encontrá-los em churrasqueiras, lixeiras, telhados e outros atrativos urbanos, explica. E nessa hora, começa o drama do animal.
Existem duas possibilidades, conta Nereston. Ou a pessoa maltrata o saruê logo que o vê, confundindo-o com um rato, ou ainda, tenta capturá-lo para criar. “Por se tratar de um animal selvagem, ao perceber o perigo, ele fica acuado e tenta investir, começa a rosnar, e se a pessoa mesmo assim insistir, ele se torna agressivo, pode morder. Ele possui caninos que vão machucar e, o pior, como são animais que comem carniça, a lesão pode infeccionar e trazer sérias consequências”.
O aconselhável é acionar a Polícia Ambiental ou o Corpo de Bombeiros, explica o médico veterinário. “Esses órgãos estão aptos a fazer a captura de forma correta. Em algumas cidades, casos de Guarujá, Bertioga, Praia Grande e São Vicente, existe ainda um pelotão especial da Guarda Municipal para executar o serviço”. É bom lembrar que, de acordo com a lei federal 9.605, é proibido criar, matar, caçar, capturar e molestar animais silvestres. A pessoa que o fizer é autuada por crimes ambientais.
Nereston comenta que, quando a pessoa tenta pegar o saruê e é mordida, muitas vezes, ela bate ou joga o animal contra a parede. Outros atiram pedras, prendem o animal para o cachorro atacar, atropelam de propósito, entre outras crueldades. Mas o veterinário lembra: “Se ele está no território urbano, é porque foi acuado do seu habitat. Ele só quer se alimentar. Então, é só mantê-lo num local seguro, acionar um dos órgãos competentes que vão fazer a captura de forma correta, sem danos para o saruê”.
Nem sempre é o que ocorre. Não por acaso, o Ceptas Unimonte, único centro habilitado na região para receber e cuidar de animais selvagens, tem um crescente número de atendimentos à espécie. Conforme suas estatísticas, das 1.500 ocorrências, entre aves, répteis e mamíferos, 95 delas foram com os saruês. “Entre os mamíferos, a maior ocorrência é com saruê. Geralmente, esses animais são encaminhados pelos órgãos competentes e aqui ficam para a reabilitação. Quando são filhotes, passam pelo menos 4 meses em tratamento”. E quando estão aptos a ganhar novamente a natureza como lar, finaliza o especialista, recebem um microchip para controle.

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