No coração da Serra do Mar, floresce o turismo comunitário

O Turismo de Base Comunitária, desenvolvido nos bairros Cota, em Cubatão, atrai cada vez mais a atenção pela experiência de novas realidades. Até o príncipe Harry, da Inglaterra, já conheceu a novidade

Morgana Monteiro

A paisagem enche os olhos e revela belezas escondidas, que só os pássaros conseguem ver em seus altos voos. De um lado, a vegetação exuberante da Mata Atlântica, em tons de verde, cachoeiras, e as flores conhecidas como “aleluia”. Do outro, o concreto das estradas que se entrelaçam em uma obra de engenharia que é referência para o mundo. Do chamado Mirante do Príncipe, na Cota 200, em Cubatão, pode-ser ver tudo isso, e mais: ter a experiência de conhecer os bairros por meio de quem vive lá. No chamado Turismo de Base Comunitária – TBC -, os guias são pessoas da própria comunidade, que falam do local e das transformações realizadas ali com foco na sustentabilidade.
O principal objetivo dessa exploração turística é fortalecer o vínculo das comunidades com os bairros, neste caso, espaços completamente modificados pelo Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, realizado pelas secretarias estaduais de Habitação e do Meio Ambiente, para estimular a geração de renda para os moradores de todos os núcleos participantes. O projeto realocou muitas famílias que, antes, viviam em áreas de risco. Os bairros foram revitalizados, permitindo essa exploração turística que ganhou força nos últimos três anos.
A ideia do Turismo de Base Comunitária surgiu após a visita do príncipe Harry, da Inglaterra, neto da rainha Elizabeth, aos bairros Cota. Ele esteve em Cubatão em junho de 2014, em visita ao Brasil e Chile. Após a presença real, a equipe social do Projeto de Recuperação Socioambiental percebeu que as visitas monitoradas poderiam beneficiar o desenvolvimento local, e surgiu o TBC.
O primeiro passo foi batizar o píer, construído no alto do Jardim Europa, Cota 200, como Mirante do Príncipe – em alusão à visita de Harry. Ali é o ponto alto da visita monitorada porque oferece uma vista surpreendente, não apenas de Cubatão, do seu polo industrial e dos bairros Cota, como também do entrelaçamento da rodovia dos Imigrantes, parte da Via Anchieta, as escarpas e os cumes da serra, o emaranhado de sinuosos caminhos rasgados lentamente pelos rios que cortam a mata do manguezal. E já quase na linha do horizonte, a muralha de prédios que delimita os quase 22 quilômetros da cidade de Praia Grande, o imponente pico Xixová, os novos arranha-céus da Zona Noroeste de Santos, os gigantescos guindastes do porto e parte do polo industrial de Cubatão. Só por isso, o passeio já valeria a pena. Mas é muito mais do que isso.
O passeio, na verdade, tem início no pé da serra, na Vila Fabril, na qual está instalado o Ateliê Arte nas Cotas, de formação em arte-educação. Ali são ensinadas pinturas com a técnica do estêncil. Os participantes confeccionam uma série de produtos como camisetas, cadernos e cadernetas com a marca e também deixam impressa sua arte nas casas das Cotas, como se vê durante o percurso. Há também o projeto ComCom, de Comunicação Comunitária, que capacita os participantes na produção e difusão de informações sobre a própria comunidade; o Cota Viva, que desenvolve ações de educação ambiental; e o Núcleo de Economia Solidária e Desenvolvimento Local – Nesdel -, que prepara refeições para os visitantes, inclusive com ingredientes da Mata Atlântica. Antes ou após o passeio completo, o lanche está garantido.
A subida até o mirante é feita a pé. No caminho, se o tempo estiver bom, os turistas podem conhecer em detalhes o trabalho artístico realizado na fachada das casas, no Jardim Europa. São desenhos geométricos que explodem em uma profusão de cores fortes, trazendo ainda mais vida ao núcleo. Há também trabalhos em mosaico, tudo feito pelos participantes do Ateliê Arte nas Cotas.
A rica posição geográfica do bairro e a história do território, habitado inicialmente a partir de 1939, por operários que ajudaram a construir a primeira pista da Via Anchieta, são um prato cheio para visitantes: sejam estudiosos de urbanismo, especialistas em temas ambientais ou curiosos. E foi esse nicho que despertou o interesse em desenvolver o TBC, como explica o técnico social do Projeto de Recuperação Socioambiental, Alex dos Santos: “Começamos um curso para capacitar os moradores para atuarem como guias. Em algumas ocasiões, dependendo do público que está com o grupo, acontecem intervenções teatrais no meio das contações de histórias pelas ruas dos bairros”. Em parceria com a Universidade Estadual Paulista, a Unesp de São Vicente, do Instituto de Biociências, o projeto foi alavancado por aliar políticas de proteção da natureza com desenvolvimento turístico, baseado em três eixos: ecológico, histórico e socioambiental.
De acordo com os organizadores, desde que teve início o Turismo de Base Comunitária, o número de visitantes brasileiros e internacionais chega a 1.200 pessoas. Já foram 56 visitas organizadas de forma avulsa ou em parceria com órgãos e universidades. Três agências de turismo, uma de Santos e duas de São Paulo, também organizam os passeios. Uma delas é a Caiçara Expedições. As visitas podem ser agendadas pelo e-mail: turnaserra@gmail.com e pelo telefone (13) 3377 1371.

Recuperação socioambiental

O objetivo do Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, do governo do estado de São Paulo, é oferecer condições dignas de moradia para 22 mil pessoas que antes ocupavam áreas de assentamento irregulares, incluindo locais de risco, além de proteger 1.240 hectares de Mata Atlântica.
O processo começou em 2007 por meio de uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2010, possibilitou avanços significativos para os moradores de todos os núcleos existentes na encosta ao longo da Via Anchieta (Cotas 95/100; 200; 400; e 500 – e no sopé da serra ao longo do rio Cubatão – Pinheiro do Miranda; Água Fria; Pilões; e Sítio dos Queirozes). A instituição financeira emprestou U$ 162 milhões – cerca de 35% do investimento total – para uma contrapartida do governo do estado e demais parceiros, como o governo federal, de U$ 308 milhões – equivalentes a 65% do custo do projeto. O programa tem algumas metas a ser atingidas: redução do impacto das populações residentes nas áreas de preservação; melhoria das condições de vida dessas pessoas; proteção das unidades de conservação; e fortalecimento da fiscalização de áreas protegidas

Projeto TBC, exemplo para o município

O Turismo de Base Comunitária, desenvolvido nos bairros Cota, tornou-se referência na cidade, e a prefeitura de Cubatão tem estudado de perto esse modelo, aproximando as ações realizadas na comunidade, com o planejamento turístico do município. Mauro Haddad, secretário de Meio Ambiente de Cubatão, explica: “Pensamos em levar o modelo daqui para outras partes da cidade como a Vila dos Pescadores e a Vila Esperança, bairros que também vão passar por mudanças urbanísticas, assim como as Cotas. Queremos também inserir as atividades do Turismo de Base Comunitária nos roteiros turísticos do município”.

Visita da realeza mudou tudo

O príncipe Henry Charles Albert David, conhecido como príncipe Harry de Gales, quarto na linha sucessória do trono britânico, esteve em Cubatão no dia 25 de junho de 2014. Ele conheceu vários projetos sociais no Brasil, entre eles, o de Recuperação Socioambiental das Cotas. Segundo representantes da comitiva principesca, o próprio Harry fez questão de visitar a Cota 200. Primeiro, ele esteve no mirante, do qual observou a Baixada Santista a partir de uma vista privilegiada. Depois, andou pela comunidade, conversou com os moradores, aprendeu a fazer comida com biomassa de banana e pintou o muro de uma das casas impactadas pelo Ateliê Arte nas Cotas. O príncipe ainda plantou uma muda de manacá-da-serra, planta nativa da Serra do Mar.

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