Morreu?!

Bob Lutz, ex-presidente da GM, afirmou, em recente entrevista, que a “era” automotiva chega ao fim

 

Marcus Neves Fernandes

Será um mero exercício de futurologia barata ou uma previsão surpreendente? Seja como for, lá por volta de 2040, a nossa atual relação com os automóveis não mais existirá. Da posse individual de um veículo, passaremos ao seu uso coletivo. O carrão e toda a enorme diversidade de serviços que ele envolve estão com os dias contados. Há quem diga, inclusive, que já morreu.
Essa sacudida no futuro vem de alguém ‘de dentro’ da indústria. Bob Lutz, ex-presidente da GM, afirmou em recente entrevista que a “era” automotiva estava chegando ao fim. E ainda marcou a data: dentro de 20 anos. Sua análise é mercadológica; leva em conta cenários ainda distantes, como os veículos autônomos, mas está alicerçada, também, no rápido avanço das tecnologias de baixo impacto ambiental, muitas das quais têm como uma das vitrines os carros elétricos.
Há dez anos, por exemplo, o Brasil produzia o seu primeiro veículo elétrico – um Fiat Pálio Weekend, com uma bateria que pesava quase 170 quilos. Nesse mesmo ano, uma bateria de lítio custava US$ 1.000/kwh. Hoje, sai por cerca de US$ 500, nos Estados Unidos, e, em menos de cinco anos, deve atingir preços similares às baterias para veículos à combustão.
Em alguns países europeus, como a Dinamarca, em 18 anos já não haverá mais fabricação de carros a gasolina. E em dois anos, a Europa inaugura a sua primeira ‘rodovia elétrica’, conectando sete países, da Noruega à Itália, com 180 estações de carregamento ultrarrápidas (20 minutos de recarga para uma autonomia de 400km. Esses e outros avanços entusiasmam os pesquisadores. Tony Seba, da Universidade de Stanford (EUA), arrisca dizer que em oito anos não se fabricará mais nenhum veículo (inclusive caminhões e similares) movido a combustível fóssil.
Assim sendo, antes de 2030, apenas elétricos, à biomassa ou outra fonte energética estarão rodando em um planeta, enfim, sem poluição automotiva ou ruído, mas não, talvez, sem o congestionamento e o trânsito caótico que vemos hoje. É óbvio e oportuno lembrar, também, que o veículo elétrico não encerra em si o conceito da sustentabilidade. Tudo começa com uma fonte limpa de eletricidade. Hoje, porém, mais de 50% da eletricidade gerada no Reino Unido e mais de 65% da eletricidade gerada nos EUA vêm de combustíveis fósseis.
Mas todo esse futuro limpo e de fácil locomoção dependerá de uma maciça adoção do transporte autônomo, que há poucas semanas mostrou todo seu potencial com o anúncio da parceria entre o Uber e ninguém menos que a Nasa. E mais: dependerá também de uma nova visão do espaço em que vivemos.
Hoje, há mais espaço para veículos do que para os seres humanos nas grandes cidades. Londres tem quase 25% de sua área ocupada por estradas e infraestruturas de apoio. Em muitas outras cidades, inclusive no Brasil, isso pode chegar a 40%. Esse espaço, já exíguo, será cada vez mais disputado e, portanto, cada vez mais valioso. Algumas sociedades já perceberam isso e se planejam para ir além do carro.
Os finlandeses, por exemplo, estabeleceram uma meta ousada: eliminar, até 2025, todos os carros particulares da capital Helsinque. Talvez, nesse quesito, nem o melhor dos futurólogos arrisca palpitar sobre o dia em que não teremos mais carros como meio preponderante de transporte no planeta. Porém, se os poluentes veículos a combustíveis fósseis estão mesmo com seus dias contatos, planejar um futuro sem carros talvez seja o próximo grande desafio.

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