Morreu um número

O jornal britânico The Guardian acaba de publicar uma lista com o total de pessoas mortas, este ano, por defenderem a terra ou os recursos naturais de suas comunidades. São 127 ‘defensores ambientais’, como chama o jornal – até agora

Marcus Neves Fernandes

A continuar na atual taxa, na próxima semana conheceremos mais quatro vítimas. A mais recente delas, aliás, foi registrada aqui mesmo no Brasil. Edilson Pereira da Silva foi morto em uma emboscada, em agosto, no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, que abriga pinturas rupestres e vestígios de ocupação humana que remontam há mais de 25 mil anos.
Edilson combatia a caça e o desmatamento ilegais, seja para garimpo ou agropecuária. Ele trabalhava como guarda florestal para o ICMBio, um instituto público federal que hoje leva o nome de Chico Mendes, morto defendendo os recursos naturais de sua região, Xapuri, no Acre, há quase 30 anos.
Nessa área, nem exemplos, ou tampouco eventuais mártires, parecem fazer diferença. O Estado, leia-se eu, você e todas as demais pessoas desta dita sociedade, continua impotente em oferecer uma equação que gere resultados satisfatórios para proteção do patrimônio ambiental. Um Estado que, obviamente, já é, há muito tempo, o mínimo possível, principalmente, quando o que precisa ser feito é fiscalização.
Sim, porque não se trata apenas de um xis número de vigilantes e um sofisticado aparato tecnológico, para proteger recursos preciosos, como nascentes ou florestas, a partir das quais se extraem os compostos mais importantes para inúmeras drogas hoje no mercado.
O que mais precisamos é justamente aquilo que menos existe: vontade política. Uma daquelas expressões que, de tanto repetir, já nem causa mais espanto ou perplexidade. Parece que estamos cada vez mais letárgicos, vendo discursos fascistas apostarem em ódio e intolerância, vazios e falsamente fáceis.
É preciso, talvez como nunca, realçar o que está em jogo, reforçar o que estamos, coletivamente, perdendo. O ônus é imenso, moralmente impagável. E não precisamos ir para o Piauí ou Acre. Isso pode ser facilmente constatado e valorado aqui mesmo, em qualquer cidade do litoral paulista.
Em setembro, por exemplo, comemorou-se o Dia da Árvore. E um estudo recém-concluído constatou que as árvores oferecem um serviço ambiental equivalente a US$ 500 milhões para cidades com cerca de 10 milhões de habitantes.
No ambiente urbano, as árvores reduzem a poluição atmosférica, atenuam a poluição sonora, aumentam a umidade relativa do ar, amenizam o impacto dos ventos, proporcionam maior conforto térmico, geram bem-estar psicológico, retêm parte da chuva, atraem a fauna e, obviamente, proporcionam valorização imobiliária.
Em ruas nas quais há pouco sombreamento, pesquisas demonstram que ocorre um desgaste até 30% maior do asfalto, por causa dos raios solares. Por outro lado, ruas arborizadas têm menor necessidade de refrigeração artificial, o que reduz o gasto com energia elétrica – uma das fontes campeãs de geração de gases de efeito estufa no mundo.
Se, no ambiente urbano, as árvores têm tamanha relevância, imagine o que representa, coletivamente, um patrimônio como a Floresta Nacional do Jamanxim ou a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo.
O mesmo governo federal, que tentou, por decreto, extinguir a reserva nacional do Cobre e Associados, tenta, nos bastidores, ao lado da bancada ruralista, reduzir o nível de proteção dessas duas reservas.
Talvez nem há 30 anos, quando da morte de Chico Mendes, os cientistas e o movimento ambientalista poderiam imaginar tamanho retrocesso. É essa maneira de fazer política que torna o guarda-parque Edilson Pereira da Silva um número. É essa maneira de fazer política que, por vezes, nos impede até de ver as árvores, mesmo aquelas na porta de nossas casas.

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