Lixo que dá lucro

Projeto Recicla+Santos já tem mais de 600 participantes

Luciana Sotelo

Você sabia que cada brasileiro gera pouco mais de 1kg de lixo por dia? Mesmo com a crise econômica, a quantidade de resíduos parece se multiplicar nas lixeiras e, na maioria das cidades, esse material ainda oferece risco à saúde da população e danos irreparáveis ao meio ambiente por levarem anos, e até décadas, para se decomporem. A respeito, os dados são alarmantes. De acordo com relatórios da Ellen MacArthur Foundation (fundação internacional que atua com pesquisa, análise e inovação de negócios para acelerar a transição para a economia circular), cerca de 8 bilhões de toneladas de plástico são descartados nos mares, por ano, o que equivale a um caminhão de lixo por minuto, ou seja, se as coisas continuarem nesse ritmo, estima-se que, em 2050, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos. Além dos plásticos, há ainda os vidros, papéis e metais.
Um ponto positivo é que todos têm em comum a facilidade no processo de reciclagem; o negativo, é que nem sempre essa é a destinação que recebem.
A reciclagem é uma das alternativas mais vantajosas, tanto do ponto de vista ambiental como social. Além de reduzir o consumo de recursos naturais, poupa energia e água, embora não seja a opção mais utilizada. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a economia brasileira perde cerca de R$ 120 bilhões por ano em produtos que poderiam ser reciclados, mas que vão parar nas latas de lixo.
Para incentivar a prática da separação do lixo e a destinação correta desses materiais, em Santos, recentemente, foi lançada uma iniciativa pioneira: trata-se do Recicla + Santos, um programa de vantagens que converte resíduos recicláveis em pontos e estes geram descontos, bônus ou até mesmo brindes, na compra de produtos em uma rede credenciada ao projeto.
A dona do conceito é a empresa 3E Sustentabilidade, que investiu R$ 350 mil na iniciativa, com apoio da prefeitura de Santos e do Grupo Mendes. A expectativa é recolher de 15 a 20 toneladas de recicláveis por mês. Já a coleta pública seletiva de lixo, feita por caminhões em toda cidade, retira, em média, 300 toneladas/mês.
E a mudança cultural da população já começou, como revela Maurício de Paula Gonçalves, coordenador comercial do projeto. O primeiro ecoponto, instalado ao lado da rampa de descida do estacionamento do Shopping Praiamar, em funcionamento há pouco mais de um mês, já superou as expectativas. “Nos primeiros 30 dias, cadastramos 620 pessoas e coletamos 15.5 toneladas de resíduos. Nossa avaliação é superpositiva, a aderência foi espetacular”.
Durante a reportagem, num período de 1 hora, quase 10 pessoas passaram pelo ecoponto e deixaram sua contribuição. Entre as participantes, conhecemos a motorista Elaine Patrícia de Souza. Ela confessou que, antes de saber dessa ação, jogava tudo no lixo comum, mas, agora, separa os materiais com muito gosto. Preocupada com a poluição dos rios e a quantidade excessiva de lixo nas ruas, ela conta que está incentivando os familiares e vizinhos a fazerem o mesmo. “Estou superengajada, já tenho pontos acumulados e, agora, pego até resíduos nas ruas, para ajudar”.
A jornalista Mônica Basile também ficou empolgada e resolveu aderir. Ela mora próximo ao ecoponto e, trouxe garrafas PETs, vidros, embalagens plásticas variadas, metais, papéis; conseguiu 85 pontos na balança. “Separei em casa e na casa do meu namorado. É legal a gente começar a fazer pelo menos o mínimo para contribuir com a sustentabilidade do planeta. Se cada um fizer a sua parte, teremos um mundo melhor, certamente”.
De resíduo em resíduo, o sistema, que funciona como uma máquina de cartão de crédito, pontua os participantes. Dona Maria de Fátima Faria, primeira doadora oficial do Recicla + Santos, já totaliza quase 11 mil pontos. A professora revela que já esperava por um programa como este há tempos. “Eu sempre fiz a minha parte e, agora, posso trazer para o ecoponto tudo separadinho. Meu grande intuito é ajudar o meio ambiente, porque mesmo na correria do dia a dia a natureza não pode ser esquecida”.
Incansável, ela diz, orgulhosa, que vai ao ponto de coleta todos os dias, sempre com o carrinho lotado de recicláveis. Ela explica que o segredo para tanta contribuição não está no consumo desenfreado, pelo contrário, está na campanha de conscientização que faz também com os vizinhos e amigos. “Ninguém joga mais reciclados no lixo. Eu recebo tudo e trago pra cá, com a certeza de que terão um destino certo”.
Ansiosa, ela não vê a hora de poder trocar seus pontos por vantagens. “Eu acho interessante essa contrapartida. É um incentivo a mais”.
Maurício de Paula Gonçalves, coordenador comercial do projeto, explica que o Recicla + Santos está cadastrando parceiros para fazerem a transferência dos pontos. “Cada comerciante vai ter um tipo de promoção, brinde ou desconto. Cada um com seu modo de fazer a conversão”.
A primeira a acreditar na proposta foi a empresária Lucilene Pereira de França, proprietária da Florença Forneria. “É muito importante fazer parte dessa ação. Eu sinto que esse projeto traz o incentivo que faltava. Com o atrativo econômico, as pessoas participam e, se ganham algo em troca, ficam satisfeitas”.
Ela afirma que, além de participar como parceiro, seu estabelecimento, que fica na Ponta da Praia e existe há 3 anos, também vai fazer a lição de casa, ou seja, separar os recicláveis. “Isso ajuda a disseminar a conscientização porque, ensinando um funcionário a separar os resíduos, consequentemente, ele leva a ideia adiante em casa, na família. É um trabalho de formiguinha”.
Segundo a supervisora de projetos da 3E, Ana Maria Azevedo Velho, responsável pela parte de resíduos, operação e gestão da reciclagem, o que mais chega ao posto de coleta são papéis (todos os tipos), plásticos e metais, nessa ordem. “Depois que sai daqui, o material segue para um trabalho minucioso de segregação fina, depois é prensado e enfardado. Daí sim, segue para a indústria. Cada resíduo tem um caminho específico na reciclagem. O papel, por exemplo, vai para a indústria de celulose”.
Ana explica que os pontos são cumulativos e essa evolução pode ser acompanhada no site, que registra o histórico dos participantes. “É possível verificar, por dia, o que cada pessoa trouxe, bem como o acumulado e, o mais importante, quanto de contribuição ambiental a reciclagem gerou. No caso, se a pessoa trouxe uma tonelada de papel, fica sabendo que, com esse montante, deixaram-se de derrubar cinco árvores”.

Participe
O ecoponto funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17 horas, na rua Vergueiro Steidel, 352, ao lado da rampa do estacionamento do Shopping Praiamar, no bairro da Aparecida.
Para participar, é necessário se cadastrar no local ou pelo site www.reciclamaissantos.com.br. Basta informar nome completo e CPF. O participante recebe um cartão do projeto.

Pioneirismo
A 3E Sustentabilidade tem dez anos de experiência em reciclagem de lixo. Atua em oito estados e dezenas de municípios (como São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, São Luiz, Fortaleza), mas a cidade de Santos é a primeira na qual o lixo resultará em economia na compra de mercadorias. Nas outras cidades nas quais o projeto foi implantado, os participantes só conseguem abatimento no valor da conta de luz.

Manual prático do que separar
Papel – (papel branco, papelão, revistas, cadernos sem arame e capa e livros);
Vidro – (embalagem em geral, garrafa de bebidas como cerveja, vinho e aguardente);
Metal – (ferros em geral, bateria, parafuso, lata de cerveja ou refrigerante);
Plástico – (garrafa de refrigerante PET, embalagens de margarina, de detergente e de água sanitária);
Outros – (óleo de cozinha, embalagem Tetrapak).
Obs.: Separe, lave e seque o material reciclável e leve até o ecoponto; material sujo e molhado não é aceito; os resíduos são identificados e pesados no ecoponto.

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