Jogo da verdade, uma arma para desmistificar o câncer infantil

Jogar bolinha de gude e pular amarelinha constituíam-se em algumas das brincadeiras mais populares de antigamente. Correr e se esconder também fazia parte da bagunça. Hoje, a criançada passa horas desenvolvendo estratégias para avançar de fase nos mais variados jogos eletrônicos. Quando se tem saúde, tudo é possível, o importante é brincar e se divertir. Mas, e quando os pequenos vivem em um cenário diferente, integrado por médicos, agulhas e tratamentos agressivos contra o câncer? Como fazer essas cabecinhas se distraírem e, ao mesmo tempo, entenderem o que está acontecendo? Se a experiência já costuma ser traumática para os adultos, o que fazer com essa garotada que passa a viver essa realidade?

Para atender esse universo de aproximadamente 13 mil crianças diagnosticadas com a doença, anualmente no Brasil, eis que surge o AlphaBeatCancer, um game que funciona como uma ferramenta de informação lúdica, divertida e superinterativa. Em 20 minigames, abordam-se termos, procedimentos e situações que passam a fazer parte da rotina de quem frequenta o setor de oncologia de qualquer hospital. Diz Simone Lehwess Mozzilli, fundadora e presidente do Instituto Beaba, que idealizou o aplicativo em parceria com a produtora de games Mukutu e apoio da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica:  “A criança aprende e se diverte ao mesmo tempo, explicamos tudo sobre o câncer, de maneira simples e direta”.

O AlphaBeatCancer reproduz a rotina do paciente, mostra o caminho do tratamento, que passa pela quimioterapia e radioterapia. Além disso, também explica a importância do ultrassom, da tomografia, dieta alimentar, higiene pessoal, entre outros estágios. Segundo Danilo Costa, um dos produtores do game, “o jogo começa no corredor do hospital, com o diagnóstico do câncer”.

Quem vê o game pronto, nem imagina quanto trabalho foi necessário. Danilo, da equipe da Mukutu, revela que, desde os primeiros esboços até o lançamento, foi necessário um ano. “Conseguimos a verba inicial por meio  de um edital do governo, o InovaApps. Eles abriram para jogos com causas sociais e a gente se inscreveu, no final de 2015. Recebemos a primeira parcela em dezembro do mesmo ano e já começamos o projeto. No meio do processo, o edital foi cancelado, ou seja, tivemos que arcar com o restante das despesas. Agora, já com o game finalizado, é que vamos receber o que falta”.

Todo o projeto foi acompanhado, de perto, por programadores, pacientes e, claro, os profissionais da saúde, como médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, pedagogos, entre outros. A drª Viviane Sonaglio, oncologista pediátrica e diretora técnica do Beaba, conta: “Tudo que nos aproxima do paciente e de sua linguagem é uma arma importantíssima para o nosso trabalho. O game veio para que o paciente sinta-se parte de seu tratamento, entendendo o que está sendo feito com ele”.

O jogo foi apresentado pela primeira vez em grande estilo, no Games for Chance, maior evento de jogos impactos do mundo, em junho de 2016, em Nova York, EUA. O lançamento oficial, no Brasil, ocorreu no dia 23 de novembro, Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil. O aplicativo está disponível em versões para a plataforma IOS e Android. E é com um orgulho imenso que Danilo fala que o game está no topo rotatório da página da Apple. “Estamos recebendo cinco estrelas, a Apple se sensibilizou e essa ajuda já nos rendeu milhões de downloads. Não recebemos nada com isso, mas a iniciativa faz com que o nosso produto fique conhecido e possa ajudar cada vez mais um número maior de famílias. Isso é muito gratificante”.

À frente da iniciativa estão Elisa Sassi, ilustradora e criadora dos personagens; Ludmilla Rossi, fundadora da produtora de games Mukutu;  e Simone Mozzilli, sócia-fundadora do Beaba – as duas últimas, pacientes oncológicas em remissão. O próximo passo do projeto é traduzi-lo para o  inglês, para desmistificar a doença e seu tratamento para mais pacientes mundo afora. “Iniciativas como este game são de fundamental importância no repasse, por meio de uma linguagem mais adequada para o público infanto-juvenil,  de informações necessárias para o sucesso do tratamento oncológico. Para Simone, é a chance de continuar ajudando as pessoas e de atrair mais colaboradores, doadores e empresas parceiras. “Porque, assim como a gente cresce, o câncer cresce e com ele o número de pacientes também”.

AlphaBeatCancer pode ser baixado gratuitamente e foi desenvolvido não apenas para auxiliar pacientes e cuidadores, mas para ser utilizado por qualquer pessoa que queira entender melhor  o universo do câncer. Ludmilla Rossi, uma das produtoras do projeto, explica: “Como paciente, tenho a percepção que o AlphaBeatCancer é um excelente caminho para que crianças que tenham pacientes na família entendam o tema de uma forma mais clara. E por ser muito visual e intuitivo, pessoas que não têm nenhuma relação com o universo oncológico também acabam aprendendo e, principalmente, ficando atentas aos sintomas para o diagnóstico precoce”.

 

Minigames

Ainda envolto em mitos e medos, o assunto câncer gera muita dúvida; em vista disso, no jogo, a pessoa tem contato com todos os profissionais envolvidos com esse ‘novo’ cenário. Por exemplo, para entender por que  o paciente não pode se  mexer durante o processo de  tomografia, o jogador deve segurar firme o personagem, no caso, um ursinho, durante a realização do exame. Caso não consiga, a imagem fica borrada e não pode ser utilizada, revela Simone. “Usamos desse artifício para conscientizar as crianças de que devem ficar paradas”.

O enfermeiro também está presente no mundo virtual. Um dos personagens mais queridos tem a missão de atender três pacientes inquietos ao mesmo tempo. “Nesse caso, queremos mostrar que nem sempre é possível atender de pronto. Buscamos valorizar o outro lado. Mostramos, de maneira divertida, que a vida do enfermeiro é corrida, geralmente, ele está muito ocupado. É preciso ter paciência e se acalmar”.

Por que o cabelo cai é outro assunto tratado com destaque, segundo Simone. “Não adianta só falar que é por causa do remédio forte, porque  a criança vai associar que os fios vão cair sempre que tomar um medicamento forte, pelo resto da vida. Explicamos que os quimioterápicos agem nas células que estão se multiplicando rapidamente no organismo e, além das células do tumor, a gente tem outras nesse estágio, entre elas, as dos cabelos. Assim, acho que é mais fácil assimilarem”.

Em cada fase, o usuário recebe pequenos livrinhos com palavras-chaves para seu aprendizado. Surpreende-se quem pensa que o final do game é a cura do paciente, diz Danilo: “Na verdade, nesse universo do câncer, fala-se em sobrevida, pois é somente no fim desse período que a pessoa pode se considerar curada”.  Ao concluir a trajetória, a criança recebe a mensagem de que deve retornar ao hospital sempre que necessário, para os exames de rotina durante o período de remissão. “O objetivo é entender tudo que está acontecendo durante o tratamento”.

Links para o download do AlphaBeatCancer: Apple – bea.ba/apple Android – bea.ba/google Site – beaba.org/game.

 

Tudo tem uma razão de ser

Em 2006, Simone teve o primeiro contato com crianças com câncer, por acaso. Ela trabalhava numa produtora e um dos clientes fazia visita voluntária mensal em instituições. Numas dessas ocasiões, ela conheceu uma casa de apoio a menores com a doença. Desde então, passou a frequentar o local por conta própria. “Eu  me identifiquei e comecei a ajudar em hospitais também. Queria estar perto deles e ajudar”.

Em 2011, a publicitária resolveu tirar um cisto de ovário e escolheu um dos hospitais  no qual já tinha familiaridade com os médicos, devido as visitas que fazia. “Depois da cirurgia, ao me ver toda cheia de curativos, descobri que estava com câncer e em estágio avançado. “Na hora, lembrei das crianças e de como era difícil para elas entenderem isso tudo. Quando foi minha vez, também corri para a internet para buscar informações,  e foi aí que descobri como o conteúdo sobre o assunto é horrível, sempre atrelado a número de pessoas que morreriam com aquele tipo de câncer, superfrio”.

Depois do tratamento, mais do que nunca, Simone continuou o trabalho voluntário, mas, agora, com outro foco: falar sobre a doença de uma forma diferente. Foi então que surgiu a ONG  Beaba, baseada em tecnologia de informação para o público mirim. O primeiro grande projeto foi montar um guia com os principais termos e situações que tanto assustam, à primeira vista. Por meio de um financiamento coletivo, a iniciativa saiu do papel e foi parar direto na mão de quem mais tinha interesse: os pacientes infantis em tratamento. Com 180 páginas, a cartilha é distribuída gratuitamente em hospitais do segmento. “Infelizmente, não conseguimos muita verba, o número de pedidos é maior do que nossa capacidade de atender”.

 

Foi dessa necessidade que se chegou ao game. “Na verdade, é até um aperfeiçoamento, porque, no guia, você tem os termos, mas não é como a animação, que só de olhar você já consegue entender do que se trata”.

Para Simone, o melhor de tudo isso é ver o rostinho da garotada compenetrada em cada lance do jogo e as reações. “Eles se identificam e passam a compreender de forma mais natural o que está acontecendo. Isso é muito gratificante”, finaliza a publicitária que, em abril próximo, passa pelos últimos exames do seu período de remissão para se considerar curada.

 

Instituto Beaba

É uma entidade sem fins lucrativos com a missão de desmistificar o câncer e informar, de maneira clara, objetiva e otimista, sobre a doença e seu tratamento para crianças, adolescentes e acompanhantes. Desde 2014, já impactou mais de 25 mil pessoas por meio de palestras, trabalhos científicos publicados nos principais eventos da oncologia pediátrica no Brasil e no mundo, captação de doadores de sangue, distribuição de kits higiene para pacientes em tratamento, além da publicação da cartilha Beaba do Câncer, criada especialmente para trazer as principais informações necessárias para os pequenos pacientes e suas famílias (www.beaba.org).

Já a Mukutu é uma produtora de games, advergames e plataformas gamificadas. Desde 2012 em operação, já desenvolveu projetos para Avon, Família Schurmann, Copag, Fundação Parque Tecnológico de Santos e Access International School. É co-criadora do TGC Crystal Fantasy, lançado em 2015, em parceria com a Copag (www.mukutu.com.br).

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