Filhos, melhor não tê-los?

Marcus Neves Fernandes

Não ter filhos é a atitude mais efetiva para quem quiser combater as mudanças climáticas. A conclusão é de pesquisadores suecos e canadenses, que criaram um ranking de iniciativas capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, tais como adotar uma dieta vegetariana e transporte coletivo. Nada, segundo eles, porém, é tão efetivo como não ter filhos. Fizeram até um cálculo: cada filho a menos equivale à mesma redução de CO2 obtida por 680 adolescentes reciclando tudo aquilo que descartam ao longo de um ano.
É como se, em um único ato, o de não ter ou reduzir o número de filhos, nós conseguíssemos resultados mais efetivos do que com o aumento das áreas verdes, proteção das florestas, não consumir carne, não utilizar carro ou avião – apenas para citar algumas das principais fontes de gases de efeito estufa, além da geração de energia.
Impressionante, não?! De fato. Tanto que, ato contínuo, o trabalho dos pesquisadores tornou-se alvo de uma saraivada de críticas. Há um pouco de tudo, desde aquele rasteiro discurso pseudomoralista, que teme pela tal tradicional família, até os que acreditam tratar-se de uma conspiração a serviço de inconfessáveis interesses comunistas, da máfia, maçonaria, dos templários ou, por que não, dos alienígenas.
Controle de natalidade é, sim, fundamental, dentro de uma política séria de sustentabilidade, uma política que precisa ser amplamente e abertamente debatida. Atualmente, chega a ser leviana a maneira como uma pessoa avalia a sua condição de ter filhos. Algo que precisa mudar – e rápido.
Do contrário, vejamos: em 1804, a Terra atingiu 1 bilhão de habitantes. Para chegar ao segundo bilhão, foram necessários 123 anos (em 1927). Porém, para alcançar 3 bilhões de pessoas, o tempo caiu abruptamente para 32 anos (em 1959). Já o quarto bilhão foi alcançado em menos tempo ainda: 15 anos (1974). Depois, mais 13 anos (1987) para cinco bilhões; em seguida, 12 anos (1999) para seis bilhões e, voilá, outros 12 anos (2011) para chegar aos 7 bilhões de indivíduos.
Nesse ritmo sem precedentes, ultrapassaremos 12 bilhões de seres humanos em 2100, quando (vamos torcer e fazer figa), nossa ciência e tecnologia talvez sejam capazes de atender as demandas por moradia, vestuário e alimentação, algo que o planeta, sozinho, já não é mais capaz de oferecer por meio de seus recursos naturais.
“A cada criança que uma mulher tem, o seu legado de emissões de carbono é aumentado em seis vezes”, afirmam os pesquisadores. E, segundo eles, “não se pode negar que a nossa densidade e taxa de crescimento aumentam as extinções de animais selvagens”.

Causa e efeito
Em 2050, daqui a pouco mais de 30 anos, apenas o crescimento da população humana ameaçará diretamente a sobrevivência de quase 15% das espécies do planeta, sendo que, ao longo das últimas quatro décadas, as projeções indicam um declínio de mais da metade do número de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes.
De acordo com as Nações Unidas, um programa de educação e planejamento familiar em todos os países em desenvolvimento custaria US$ 8 bilhões. Hoje, uma, em cada cinco mulheres em todo o mundo, algo perto de 1 bilhão, não usa contraceptivos modernos.
Dessa forma, torna-se impossível dissociar biodiversidade e mudanças climáticas da temática ‘controle de natalidade’. Grandes grupos ambientalistas temem, há décadas, correlacionar essas questões. E é fácil entender o motivo. Se já é tão difícil incutir nas pessoas novos valores (como não usar carro), fundamentais para garantir um desenvolvimento sustentável, imagine incluir na discussão o planejamento familiar? Imagine o nosso Congresso ‘evangélico’, preocupado única e exclusivamente com a reeleição?! Imagine….
Será um longo e árduo caminho, repleto de interpretações equivocadas e fortes grupos raivosamente contrários a qualquer alteração no status quo. E no meio de toda essa confusão ainda haverá, com certeza, os grupelhos políticos que hoje pululam em franca ascensão pelo mundo e no Brasil, mais interessados em confundir do que agregar. Porém, será preciso encarar o que no fundo não passa de ignorância (aliada a uma boa dose de oportunismo, obviamente).
A história humana é uma história de superação e adaptação. Imbecis sempre existiram e continuarão aí, sempre à espreita de quem tenha pouca capacidade de raciocínio. Ainda assim, acredito sempre que o bom-senso, nem que seja à beira do precipício, tende a imperar. Por isso, quanto mais cedo começarmos a puxar os freios, mais suave será a parada.

Related News

Comments are closed

Revista Beach&co