Em Guarujá desenvolvimento e autonomia caminham lado a lado

O isolamento físico em decorrência de sua posição geográfica gerou,  na ilha de Santo Amaro, um natural espírito independente. No dia 30 de junho de 1934, conquistou a emancipação político-administrativa, originando-se, daí, a Estância Balneária de Guarujá

Por Tamara Caetano

No dia 30 de junho de 1934, conquistou a emancipação político-administrativa, originando-se, daí, a Estância Balneária de Guarujá (Foto Marcos França)

No dia 30 de junho de 1934, conquistou a emancipação político-administrativa, originando-se, daí, a Estância Balneária de Guarujá (Foto Marcos França)

Rogério Sachs, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá (Aceg), vê os avanços na liberação do Aeródromo Civil Metropolitano de Guarujá com otimismo

Rogério Sachs, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá (Aceg), vê os avanços na liberação do Aeródromo Civil Metropolitano de Guarujá com otimismo

Passados 81 anos de emancipação político-administrativa, diversos vetores de Guarujá apontam franco crescimento. Os guarujaenses e habitantes de toda a Baixada Santista podem sonhar alto, pois o Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá, tão esperado na região, está bem mais próximo da realidade.

No dia 22 de junho, foi publicada, no Diário Oficial da União, a portaria Nº 26 (19/06/2015), que confere a anuência à concessão da exploração do Aeródromo Civil Metropolitano de Guarujá. O secretário do município Adilson de Jesus, responsável pela pasta de Desenvolvimento Econômico e Portuário, explica a importância do passo dado e quais serão as próximas medidas, para dar continuidade ao processo. “A anuência é o documento final pelo qual a Secretaria de Aviação Civil e a Aeronáutica concedem 100% à outorga para construir o aeroporto. Nós já temos um levantamento de dados e agora vamos montar o processo e dar entrada junto aos órgãos ambientais. O próximo passo é conseguir a licença ambiental”.

A expectativa da prefeita Maria Antonieta de Brito é de que, entre os anos de 2016 e 2017, o aeroporto, provavelmente cinco vezes maior do que o projeto original, já esteja em funcionamento. O objetivo é receber até 20 voos diários, atendendo demandas de turismo de lazer e de  negócios. Além disso, a construção poderá gerar cerca de 500 novas oportunidades de emprego. O empresário Rogério Sachs, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá (Aceg), vê o empreendimento com otimismo. “O aeroporto será um dos fatores impulsores para o crescimento do turismo de negócios, possibilitando a realização de feiras e congressos, já aquecendo outras esferas econômicas da cidade”.

Ministro dos Portos Edinho Araújo recebeu as demandas da classe empresarial e de autoridades locais, sobre os planos para a área portuária de Guarujá (Foto Pedro Rezende)

Ministro dos Portos Edinho Araújo recebeu as demandas da classe empresarial e de autoridades locais, sobre os planos para a área portuária de Guarujá (Foto Pedro Rezende)

Porto
Pode-se dizer que, em Guarujá, futuro e passado caminham juntos. Ao mesmo tempo em que a cidade alça voos maiores, o mar, outrora o mais importante instrumento usado por reis em busca de riquezas, ainda é um de seus pilares de sustentação. A atividade portuária é intensa, sendo a segunda maior arrecadação da cidade. Pelo cais de Vicente de Carvalho passam 57% de todas as cargas movimentadas no complexo portuário da Baixada Santista.

O antigo costume da transação de produtos pelo oceano continua tão contemporâneo e eficaz que, frequentemente, a área portuária de Vicente de Carvalho recebe investimentos que estimulam sua expansão. Com a verba destinada para este fim, um novo acesso para melhorar a circulação dos caminhões que transportam mercadorias foi inaugurado no último dia 15 de janeiro. A passagem localiza-se entre a rodovia Cônego Domênico Rangoni e a avenida Santos Dumont, aliviando, assim, o amontoado de caminhões que se formava na rua Idalino Pinez, conhecida como rua do Adubo, no bairro Jardim Boa Esperança.

Aeródromo Civil Metropolitano de Guarujá (Foto Pedro Rezende)

Aeródromo Civil Metropolitano de Guarujá (Foto Pedro Rezende)

Como toda boa história da Era das Grandes Navegações, também existe a acirrada disputa por territórios. Guarujá e Santos debatem sobre a autonomia da extensão portuária. A área é conhecida legalmente como a margem esquerda do porto de Santos. Como a cidade lida com todo o ônus de ter um porto em suas limitações, a prefeita Maria Antonieta pleiteia pelo bônus (Guarujá perde cerca de R$ 30 milhões ao mês, uma vez que a maior parte dos impostos é recolhida por Santos) e levanta a bandeira para que a região seja reconhecida como porto de Guarujá.

Após a iniciativa da chefe do Executivo, outras autoridades do município começaram a discutir sobre o reconhecimento do mesmo. Em recente visita do ministro dos Portos Edinho Araújo, a prefeita voltou a cobrar o governo federal neste sentido. A responsável pela mediação dessa pendência e que busca apresentar um “Tratado de Tordesilhas” para resolver a questão é a Companhia Docas do Estado de São Paulo.

A diretoria da estatal, atualmente, estuda uma maneira de as duas cidades chegarem a um acordo. Adilson de Jesus comenta sobre a fase atual do processo: “Existe o desejo que o porto de Guarujá tire seu próprio CNPJ, para facilitar até para os operadores; não existe um processo jurídico, mas estamos conversando com a Codesp e o com o ministro dos Portos sobre essa e as demais possibilidades para o nosso porto”.

Um estudo elaborado pela consultoria R. Amaral & Associados detectou uma brecha na Constituição Federal de 1988, a qual dá o direito aos municípios de elaborar a sua própria Lei Orgânica e legislações complementares, como o Código Tributário Municipal. Sendo assim, Guarujá tem todo o direito de lutar pela implantação de seu porto.

Estádio Municipal Antônio Fernandes foi totalmente reformulado e pode servir de base durante a Olimpíada 2016 (Foto Pedro Rezende)

Estádio Municipal Antônio Fernandes foi totalmente reformulado e pode servir de base durante a Olimpíada 2016 (Foto Pedro Rezende)

Campo fértil para criação de empregos
A busca de qualificação profissional e o desafio de expansão têm sido uma iniciativa permanente da prefeitura do Guarujá. Uma das maneiras encontradas para arrecadar recursos e, ao mesmo, tempo criar oportunidades de emprego para a população, foi estimular a vinda de grandes empreendimentos. A Saipem, empresa italiana do ramo petrolífero, é um bom exemplo disso.

A companhia se instalou no Guarujá no ano de 2012. A prefeitura fechou uma parceria com a multinacional, que se comprometeu em fazer ações institucionais importantes para o desenvolvimento local, como capacitação de mão de obra, qualificação dos prestadores de serviços e fornecedores locais e iniciativas de inovação e desenvolvimento tecnológico. A técnica em meio ambiente Nathália Eleotério, de 21 anos, moradora do bairro das Astúrias, foi beneficiada com o acordo.

Com a sua vinda, a Saipem fomentou a chegada de outra corporação italiana, a construtora Piacentini, que presta serviços para a Saipem, na qual Nathália trabalha como analista administrativa júnior. Ela comenta sua experiência: “Eu trabalhava em outra empresa, que também prestava serviços à Saipem; o contrato acabou e eu pensei em ficar parada por algum tempo, mas a Piasentini chegou, e como eles eram novos na cidade, quiseram ficar comigo e com outras pessoas, já que conhecíamos o serviço. Ainda bem, as vagas sempre vão existir porque Guarujá e a Baixada têm para onde crescer; elas são concorridas motivo pelo qual todo mundo está se qualificando”.

Cidade cresce e abre campo para o emprego e geração de renda de sua população (Foto Pedro Rezende)

Cidade cresce e abre campo para o emprego e geração de renda de sua população (Foto Pedro Rezende)

Qualificação é a palavra chave. Em fevereiro de 2013, foi entregue a Escola Técnica Municipal 1º de Maio, um Núcleo de Qualificação Profissional que visa preparar os moradores da cidade, para ocupar postos de trabalho na área de petróleo e gás. Nathália, que fez seu curso técnico na escola, fala sobre sua visão como estudante. “Os professores investem muito no aluno lá no 1° de Maio. Eles incentivam a tirar os projetos do papel, acreditam em seu potencial e isso dá bastante segurança. É uma ótima escola”.

Além do crescimento na área petrolífera, Guarujá abrirá mais duas fontes de oportunidades para os desempregados: a construção e funcionamento do Aeroporto Civil Metropolitano e a abertura do Poupatempo, em Vicente de Carvalho, a ser inaugurado ainda este ano. O secretário municipal Adilson Luiz de Jesus, responsável pela pasta de Desenvolvimento Econômico e Portuário, fala das expectativas da prefeitura. “No aeroporto, fala-se em 500 vagas de emprego. Quem vai cuidar do Poupatempo é uma empresa terceirizada, por isso, não temos uma estimativa de empregos, mas a prefeita insistiu e será utilizada mão de obra local”.

A técnica em meio ambiente Nathália Eleotério foi uma das beneficiadas com a chegada da Saipem

A técnica em meio ambiente Nathália Eleotério foi uma das beneficiadas com a chegada da Saipem

Em busca do ouro
O surgimento do potencial turístico de Guarujá ocorreu no fim do século XIX, com o desenvolvimento da economia paulista. Em 1892, a Companhia Prado Chaves decidiu criar, na praia de Pitangueiras, uma vila para que as pessoas pudessem se hospedar. Junto dessa vila foi construído o Hotel Cassino La Plage, empreendimento inaugurado em dois de setembro de 1893, reduto da classe alta paulistana, durante o verão. Atualmente, a cidade possui a mais extensa rede hospitaleira da Baixada Santista e, agora, apresenta uma nova opção de sua maior fonte de renda: o turismo.

Em 2014, o munícipio tornou-se um dos locais que serviram como cidade base da Copa do Mundo, no Brasil. A seleção da Bósnia e Herzegovina encantou-se com as belas paisagens litorâneas e a infraestrutura da cidade, e escolheu Guarujá como sua casa verde-amarela. Em troca, a população adotou a Bósnia como seu segundo time, e até o ator Marcelo Adnet, simpatizante do país, veio especialmente a Guarujá para acompanhar os treinos.

A secretária municipal de Turismo Maria Eunice Grötzinger, que, na época, era responsável pelo Núcleo de Projetos Especiais ligados à Copa do Mundo, fala sobre como foi receber a equipe de futebol. “Tivemos uma experiência muito boa. Nós conquistamos verba para nos estruturar, adequamos nosso estádio, despertamos a autoestima da população por sua cidade e tivemos o intercâmbio cultural, que foi muito interessante”.

O governo federal assinou um convênio pelo qual repassou R$ 4,5 milhões para a prefeitura aparelhar o Estádio Municipal Antônio Fernandes com equipamentos de segurança, iluminação, fisioterapia e ginástica de última geração, para os treinamentos da Bósnia. Também foram destinados R$ 12 milhões do governo estadual, para reformar todo o estádio, implantar um sistema de drenagem, gramado especial e revitalização do entorno, com a reurbanização de doze ruas do Jardim Helena Maria e a troca de refletores do bairro por novos. A prática em receber os atletas estrangeiros foi tão positiva, que a prefeita Maria Antonieta de Brito ambiciona repetir a ideia na  Olimpíada 2016.

Já existem pelo menos quatro países interessados em ficar na ilha: Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Polônia. E o número pode aumentar. Em agosto, será realizado, no Rio de Janeiro, um evento que deve reunir todos os países que terão participação nos jogos olímpicos e paralímpicos, uma grande chance para que representantes das cidades façam contatos com mais delegações. A secretária Eunice explica o porquê do grande empenho de Guarujá em trazer os esportistas:
“A cidade ganha muito com ofertas de investimento; os profissionais procuram se capacitar melhor e os estabelecimentos também; o mercado turístico fica aquecido e, ainda, tem a promoção internacional de Guarujá”.

Crianças
A Olímpiada é um dos eventos mundiais mais envolventes aos olhos das crianças. Elas têm oportunidade de aprender, conhecer novas modalidades esportivas, atletas que futuramente podem entrar para história, países que elas nunca ouviram falar antes e até instigar a vontade de praticar algum esporte, o que é sempre saudável tanto para o corpo quanto para mente. A secretária Eunice revela que a administração da cidade já pensa nisso e tem planos nesse sentido com os alunos das escolas municipais. “Nós queremos que o bom exemplo do espírito olímpico chegue às escolas e que eles entendam a importância de participar de uma Olímpiada. Quem sabe, alguns deles se sintam despertados a praticar alguma atividade e, no futuro, tornem-se grandes esportistas? Esse é o maior legado que a Olimpíada deixaria na nossa cidade”.

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