Cactos, até eles, na lista vermelha

A espécie está em risco de extinção, principalmente, devido ao comércio ilegal. O Brasil possui menos de 20% das diferentes famílias de cactos do planeta, diversidade das mais ameaçadas do mundo

Morgana Monteiro

A maioria acredita que eles só sobrevivem em terras áridas. O caule, quando cortado ao meio, oferta água no deserto. Tal imagem dos cactos, retratada grosso modo na ficção, não representa a totalidade das espécies. A planta, fundamental em ecossistemas extremamente secos, é fonte de alimento para animais como cervos, lagartos, coiotes, e suas flores fornecem néctar para pássaros e abelhas. E, no Brasil, os cactos não estão presentes apenas no Nordeste; a planta habita, principalmente, o bioma pampa no Rio Grande do Sul e os campos rupestres e caatinga do norte de Minas Gerais.
Antes, conhecida pelas belas flores e formatos variados, agora, várias espécies de cacto estão famosas por um motivo menos nobre: entraram para a famigerada lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção da Internacional Union for Conservation of Nature – IUCN – ou União Internacional pela Conservação da Natureza. O primeiro relatório global produzido ano passado sobre o tema aponta que 31% das espécies de cacto correm o risco de desaparecer do planeta, o que revela o nível de ameaça muito maior do que se pensava. E isso inclui as plantas que ainda sobrevivem em terras gaúchas e mineiras.
A razão da má notícia, segundo a pesquisa, é a pressão crescente exercida por atividades humanas como o comércio ilegal, além do desenvolvimento agrícola e urbano sem limites que os cientistas chamam de “transformação de habitat”. As informações fazem parte de um estudo conduzido pela Universidade de Exeter, do Reino Unido, e integra o artigo científico intitulado High proportion os cactus species threatened with extinction (Grandes proporções de espécies de cactos ameaçadas de extinção). Foi elaborado pela cientista Bárbara Goettsch e publicado no primeiro volume da revista Nature Plants, novo periódico da família da revista Nature, de alto perfil de circulação mundial.
Para se ter uma ideia da trágica constatação, os cactos encontram-se mais ameaçados que alguns mamíferos ou aves, como afirma a bióloga Daniela Zappi: “O estudo compara a proporção de aves, répteis e anfíbios em perigo de extinção com a de cactos. A planta encontra-se tão ou mais ameaçada do que esses grupos de animais”.Daniela é uma das maiores especialistas em cactos no Brasil, participante da pesquisa de Goettsch. Daniela é formada pela Universidade de São Paulo (USP), já trabalhou no Royal Botanic Gardens, na Escócia, na implantação do Novo Jardim Botânico de Cingapura, e continua pesquisando os cactos em nosso país. Ela destaca que poucos grupos de plantas foram estudados tão a fundo, do ponto de vista de extinção, como os cactos. Os resultados revelam que a região Sul do Brasil e certos desertos mexicanos são as áreas nas quais há maior perigo de a planta desaparecer. O Leste do Brasil, berço da caatinga mineira, fica em terceiro lugar nesta triste estatística.
O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com maior diversidade de cactáceas. De acordo com a Fundação Zoobotânica gaúcha, dos diferentes tipos de cactos presentes ali, 53 estão em situação de algum grau de vulnerabilidade, caracterizando uma das famílias de plantas com maior número de espécies ameaçadas naquele estado. Em alguns casos, suas populações não chegam a 500 unidades na natureza. As localidades nas quais ainda são encontradas algumas espécies são guardadas a sete chaves pelos biólogos. Para eles, a divulgação poderia colocá-las em risco ainda maior.
Zappi explica: “Em geral, as pessoas relacionam os cactos no Brasil apenas à caatinga do Nordeste, especialmente o mandacaru, xique-xique, facheiro e coroa de frade, que são figuras emblemáticas. Mas o centro da diversidade no Sul brasileiro tem mais espécies ornamentais e ameaçadas”. De acordo com ela, ocorrem mais de 260 espécies da planta em nosso país e, embora possua menos de 20% da diversidade dessa família no mundo, é uma das mais vulneráveis, hoje. “O que nos surpreendeu é a posição (triste) que o Brasil ocupa em relação a outros lugares do mundo”.

Crescente vulnerabilidade
Bárbara Goettsch, que conduziu o estudo global sobre cactos, diz que os resultados desta avaliação foram um choque para os pesquisadores. “Não esperávamos que os cactos estivessem tão ameaçados e que o comércio ilegal fosse um fator tão importante para o seu declínio”. A avaliação mostra que 47% das espécies foram afetadas pelo comércio irregular de plantas vivas e sementes para a indústria hortícola e coleções privadas, bem como a sua colheita insustentável.
O comércio de cactos acontece nacional e internacionalmente e tem 86% das espécies ameaçadas presentes. Segundo a pesquisa global, asiáticos e europeus são os principais mercados responsáveis pelo comércio ilegal da planta, sendo que os espécimes arrancados da natureza são procurados por sua raridade. Além disso, o desenvolvimento residencial e comercial, pedreiras e aquicultura (particularmente a criação de crustáceos, que se expande pelo habitat dos cactos, as pedras) também estão entre as principais ameaças à espécie.
A extinção dos cactos não significa apenas o seu desaparecimento: pode afetar uma cadeia viva inteira. A planta presta serviço ecossistêmico, mantendo a fauna local alimentada. Provê água e alimento para lagartos, tartarugas, coelhos, coiotes, cervos, codornas, perus, entre outros que, em troca, ajudam a distribuir as sementes; as flores ofertam néctar para beija-flores, abelhas e morcegos que polinizam a planta. Em algumas comunidades rurais, tem utilidade medicinal e, principalmente, alimentar. Exemplo disso é a haste da Opuntia ficus-indica, popular no México, que tem seu valor nutricional comparado ao de um pedaço de carne.
Em uma reportagem do site da IUCN, www.iucn.org, o diretor geral do Instituto diz que o estudo só confirma que a escala do comércio ilegal de animais selvagens – incluindo o comércio de plantas – é muito maior do que eles pensavam. “O tráfico de vida selvagem diz respeito a muitas outras espécies, além dos rinocerontes e elefantes, carismáticos, que tendem a receber atenção global. Devemos intensificar urgentemente os esforços internacionais para combater o comércio ilegal de vida selvagem e reforçar a implementação da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, a Cites, se quisermos evitar o novo declínio dessas espécies”. Esta convenção é um acordo internacional ao qual os países aderem voluntariamente e possui regras restritivas ao comércio de plantas e animais em extinção. O Brasil é signatário dessa convenção.
As ações mundiais são importantíssimas, sem dúvida. Porém, a proteção do habitat dessas plantas é urgente para manter a espécie, de acordo com a bióloga Daniela Zappi. “Existem inúmeros mecanismos nesse sentido, como a designação de áreas protegidas, monitoramento dessas espécies, divulgação desse tipo de informação para as comunidades locais que convivem com as espécimes ameaçadas, por exemplo”, considera. Outra alternativa interessante, segundo a pesquisadora, seria o maior intercâmbio entre coleções privadas e públicas.

Cactários e coleções públicas
Segundo biólogos, uma das maneiras de manter os cactos ameaçados vivos é criá-los em condições “ex-situ”, que significa, literalmente, conservar a planta fora do lugar de origem, por meio de coleções, cactários ou banco de sementes, com a possibilidade de reintrodução controlada no habitat. Porém, há poucas coleções públicas no Brasil neste sentido. No estado de São Paulo, por exemplo, o cactário mais próximo para quem vive na Baixada Santista fica na cidade de Santo André. Funciona no parque-escola, vedado à comunidade. Possui mais de 100 espécies da planta, concentradas em um espaço ao ar livre. O local destina-se à educação. O Jardim Botânico de Jundiaí, interior paulista, também tem um espaço para cactos e suculentas com 115 espécies da planta.
Em Minas Gerais, a Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte mantém o Jardim Botânico da cidade com espécies como mandacaru, cacto-bola e cabeleira-de-velho. Há também a estufa dos campos rupestres, reunindo diversos tipos de plantas, entre elas, os cactos. Os campos rupestres são um tipo de vegetação, que ocorrem em regiões montanhosas, acima de 900 metros de altitude, sobre rochas ou solos rasos. São regiões de grande valor turístico, cultural e ambiental, especialmente, por abrigarem importantes mananciais e nascentes e uma riqueza florística impressionante. Esta estufa representa a vegetação da parte mineira da Serra do Espinhaço, imponente maciço que se estende por mais de mil quilômetros, desde o centro-sul de Minas Gerais até a Chapada Diamantina, na Bahia, considerada pela Unesco uma Reserva da Biosfera.
Já no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, há um cactário público, inaugurado recentemente, com mais de 100 novas espécies de cactos e suculentas, somando-se à coleção já existente, que possui mais de 2.500 plantas do tipo. O local adquiriu inúmeros cactos nativos e exóticos, escolhidos criteriosamente pela coordenadoria das coleções vivas da instituição. São vários espaços: cactos em estufas, distribuídos de forma ornamental e científica; áreas externas, onde estão cactos prioritariamente brasileiros, outro com cactos exóticos (não nativos); e, por último, um canteiro denominado “Parece mas não é”, formado por plantas que se assemelham aos cactos, mas pertencem a outras famílias botânicas.
Apesar de os canteiros da flora brasileira de cactos já se encontrarem ricos e diversos, com exemplares baianos, mineiros e cariocas, a coordenadoria organiza uma agenda de expedições botânicas para a busca de espécies em outras áreas como, por exemplo, o Rio Grande do Sul, que é sabidamente o estado brasileiro com maior diversidade de cactos.
E é lá que existe uma dos maiores coleções públicas de cactos do Brasil, no Jardim Botânico de Porto Alegre. O local possui um acervo significativo da flora regional, e a coleção de cactáceas é uma das mais antigas, com mais de 50 anos. No início da década de 1960, as suculentas do colecionador Carlos Zuckermann foram incorporadas ao acervo do Jardim Botânico, com mais de 5 mil vasos e mais de 600 espécies do Brasil e de outros países.
Atualmente, o cactário gaúcho possui mais de 50 espécies, a maioria ameaçada de extinção e endêmicas do bioma Pampa. Devido às diferenças entre as formas biológicas e exigências fisiológicas, os cactos estão distribuídos entre o arboreto (para espécies de maior porte como Cereus e Opuntia); a casa de vegetação que abriga cactos de menor porte plantados em vasos (Frailea, Parodia, Gymnocalycium e Echinopsis); e um abrigo coberto com tela de sombreamento (para plantas epifíticas dos gêneros Lepismium, Epiphyllum, Rhipsalis e Schlumbergera).
Nas palavras de Ricardo Aranha Ramos, do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, “para o incremento das coleções científicas são realizadas expedições de coleta que abrangem todas as regiões do estado. Cada material é completamente identificado, recebendo um número que será a ligação aos seus dados de coleta e plantio, incluídos no banco de dados. A Fundação Zoobotânica também tem um banco de sementes que oferece a possibilidade de reproduzi-los para reintrodução controlada no habitat. Mas isso deve ser feito com extremo cuidado”.
Ele é um dos autores do livro Cactos do Rio Grande do Sul, que traz um resumo de tudo isso, reunindo 15 anos de pesquisa e documentação fotográfica, após mais de 50 expedições a campo. A publicação traz um panorama extenso das cactáceas e sua interface no estado e está recheado de belas fotos. O livro pode ser baixado gratuitamente no site da Fundação www.fzb.rs.gov.br . Basta acessar o setor Serviços e depois, Biblioteca e Publicações.
O estudo que respaldou essa reportagem aponta para a possibilidade do desaparecimento da planta em “um futuro próximo”, ou seja, 50 anos, contados a partir de agora. Parece muito, mas de acordo com a bióloga Daniela Zappi, não é: “Se não fizermos modificações em nosso comportamento até a próxima década, será tarde para determinadas espécies de cactos”. Vale lembrar que algumas famílias da planta possuem um crescimento bastante lento, o que as torna ainda mais vulneráveis. Estas plantas, que evoluíram para lidar com as duras condições encontradas em paisagens áridas, rochedos, altitude, agora enfrentam uma ameaça ainda maior: a humana.

Coleções privadas, coleções sustentáveis
Em Pirituba, na zona norte de São Paulo, está um éden particular, recheado de cactos por todos os lados. O espaço é o oásis de Sérgio David Marin de Souza. Atualmente, a coleção de Sérgio tem 500 cactos, de doze espécies diferentes. Na estufa, Sérgio planta sementes e espera a planta crescer, um processo que demora pelo menos cinco anos. Esta é a contribuição do colecionador para continuar mantendo determinadas espécies. A Parodia Alacriportana, nativa de terras gaúchas e uma das espécies que podem entrar para a lista dos cactos ameaçados de extinção, é uma de suas preferidas. Sérgio também comercializa algumas espécies, as mais populares, como Notocactus e Mammillaria. No site www.cactosbrasil.com.br é possível verificar algumas das espécies disponíveis para comercialização.

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