Bicicletas em movimento

Projeto pioneiro visa a recuperação de bikes usadas e doação para os mais necessitados

Luciana Sotelo

Hoje em dia, a palavra de ordem é sustentabilidade, embora nosso país ainda esteja bem longe dessa realidade. Apesar de ocupar, há 14 anos, o primeiro lugar no ranking mundial de reciclagem de latas de alumínio, o Brasil também coleciona estatísticas e exemplos ruins, como a poluição do rio Tietê, o desmatamento da Amazônia, entre muitos outros problemas ambientais.
Para chamar atenção sobre o tema e despertar a consciência ecológica na população, um projeto criado em Santos objetiva o reaproveitamento de bicicletas que, por algum motivo, foram deixadas de lado e descartadas inadequadamente.
Então, que tal ajudar o planeta e, de quebra, contribuir para o dia a dia de uma pessoa necessitada? Pois esta é a meta do projeto Bicicleta Velha, Botar pra Rodar, protagonizado pela Associação Brasileira de Ciclistas, que recebe as doações, recupera os equipamentos e, posteriormente, encaminha-os a pessoas carentes. Quem explica é o presidente da instituição, Jesse Teixeira Felix: “Muitas delas ficam anos encostadas, atrapalhando a vida dos donos, que não sabem como se livrar, ou então, as descartam em locais impróprios. Queremos trazer uma solução para tudo isso”.
Segundo o idealizador da ação, ao doar o equipamento, o colaborador não apenas faz um ato de generosidade, como também ajuda a reduzir o número de veículos em movimento, pois, a bicicleta é um dos poucos meios de transporte que não geram resíduos poluentes. “Ouvimos toda hora, nos noticiários, os efeitos das variações climáticas e tantos outros problemas relacionados ao meio ambiente. Assim, o incentivo ao uso da bicicleta é essencial para equalizar esse forte impacto, já que elas propiciam a diminuição do número de veículos nas ruas”.
Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta é definida como um veículo de propulsão humana, dotado de duas rodas, utilizado tanto para fins de locomoção no dia a dia como para lazer, sendo um dos meios de transporte mais usados no mundo.
Jesse afirma que, em muitas cidades do exterior, os governos realizam políticas de incentivo ao uso da bicicleta, com campanhas de conscientização da população com relação aos benefícios à saúde e à natureza, além de investir em infraestrutura adequada e segura para sua utilização. “No Brasil, a realidade ainda é distante do desejável, mas temos aqui, em Santos, por exemplo, uma cidade-referência em ciclovia. Isso é muito bom”.
De acordo com dados da prefeitura, são 43,3 quilômetros de malha cicloviária. As vias exclusivas para bicicletas interligam a orla ao centro de Santos; a divisa com São Vicente à área do porto; e a Zona Leste à Zona Noroeste. Graças a essa rede, Santos é considerada ‘cidade amiga da bicicleta’ pela ABC (Associação Brasileira dos Ciclistas). A condição de ser um município quase totalmente plano favorece a adesão a esta modalidade de transporte.
E os dados comprovam. Jesse conta que a ABC realizou um estudo para quantificar o número de ciclistas que passam por Santos todos os dias. A pesquisa foi realizada em 2015 e identificou mais de 100 mil bicicletas.

Campanha
O projeto não fornece bicicletas novas, reforça Jesse. “Nós executamos pequenos reparos nas bikes doadas. Não pegamos pela estética e, sim, pela funcionalidade”. A iniciativa começou em junho deste ano. Até o momento, recebeu 20 bicicletas e entregou 5, porém, a demanda já supera a expectativa. “Temos uma lista de espera com mais de trinta nomes. Hoje, tem muita gente desempregada, sem condições de pagar transporte público, e a bicicleta resolve esse problema”.
Por enquanto, existe apenas um ecoponto, ou seja, um local destinado ao recebimento e reparo das bikes. Ele funciona na rua da Constituição, 75, no Paquetá, explica Jesse, que há dez anos desenvolve trabalhos de incentivo ao uso das ‘magrelas’. “Nosso objetivo é criar mais quatro ecopontos em Santos, e estamos em tratativas para ampliar a São Vicente e Praia Grande. Possivelmente, nosso projeto vai crescer e se tornar regional”.
Recentemente, o foco da campanha são os condomínios, revela. “Queremos que os porteiros e síndicos levem nossa proposta adiante e nos ajudem a identificar bicicletas abandonadas. Muitas vezes, o próprio dono quer se livrar dela, mas não sabe como. Nós temos dois caminhões à disposição para retirar esse material, sem custo algum”.
Uma boa notícia: os condomínios que colaborarem com a causa receberão certificado de participação na campanha. “Isso é importante porque todos têm responsabilidade social. Não é só reciclar garrafa PET e latinhas, temos que ampliar o conceito de sustentabilidade e reciclar bikes também”.
Pioneiro na região, o projeto não tem patrocínio, por isso, Jesse faz um apelo aos empresários. “Precisamos de verba para a troca das câmaras; cada uma custa em torno de R$ 5,00. Também precisamos frequentemente de pneus. Além disso, queremos intensificar as doações de bikes infantis até o Natal, para poder doá-las, novas ou usadas, para as crianças carentes”.
É como diz o ditado: O que não é bom para um, pode ser perfeito para o outro. Rosemeire de Almeida, de 52 anos, tinha uma bicicleta parada há pelo menos um ano. Por falta de tempo, a funcionária pública aposentada não conseguia pedalar. Foi então que resolveu colaborar. “Eu acredito que estamos nesse mundo para ajudar o próximo. Se eu estivesse precisando mesmo da bike, ela não estaria parada por tanto tempo”.
Do outro lado da balança estão Jaime e Rafael, ambos beneficiados com doações. Jaime Gomes Santana, de 53 anos, autônomo, diz que vai utilizar o ‘presente’ para ir ao trabalho. Ele mora no bairro da Encruzilhada e precisa chegar ao centro. “Agora, o percurso dura, em média, dez minutos. Tudo fica mais prático, rápido e econômico. Com o que eu ganho, não teria como comprar um equipamento desse. Estou muito contente”.
Feliz mesmo ficou Rafael Gonçalves Chaves, de 21 anos. Ele diz que a doação chegou em boa hora, pois, como também é autônomo, não tem ajuda de custo para se locomover. “Muitas vezes, fico sem dinheiro para pegar o ônibus. Agora, tenho uma preocupação a menos. Além disso, é muito bom e saudável dar umas pedaladas”.
Já Rosemeire de Almeida diz que, em breve, vai adquirir outra bicicleta, afinal, também adora se exercitar. “Com o final do ano, vou comprar outra com o meu 13º salário e reservar um tempo para essa atividade. Por hora, preferi fazer uma doação de coração”.
Relatos assim servem de estímulo, diz Jesse. “O que o mundo precisa é de bons exemplos. O que não podemos mais é ver ferro sendo colocado no lixo, pneus pelas ruas ou terrenos, e essa falta de respeito ao meio ambiente. As pessoas têm que levar ao pé da letra o conceito de sustentabilidade, e não apenas falar da boca pra fora”.

Related News

Comments are closed

Revista Beach&co