Bertioga em busca de sua vocação natural

Aos 26 anos de idade, completados neste mês de maio, Bertioga já recebe uma boa demanda de turistas em busca de natureza e aventura, por isso, prepara-se para potencializar sua vantagem ambiental e histórica

Dona de três grandes bacias hidrográficas e diversas cachoeiras, com 93% de seu território de 490km² em áreas de preservação permanente, incluindo parte de seus 45 quilômetros de costa e 36 quilômetros de praias, Bertioga guarda, desde o século XVI, tesouros turísticos, históricos e naturais, muitos ocultos até a presente data. Passear e pescar no píer da Vila ainda são as atrações mais conhecidas. Navegar pelo vigoroso rio Itapanhaú é privilégio de pescadores e proprietários de barcos. São poucos os que já experimentaram as delícias de caminhar pelas trilhas D’Água e Guaratuba, ou de se refrescar no raso e tranquilo rio Jaguareguava, perfeito também para ser percorrido por caiaques e canoas, dentro do Parque Estadual da Restinga de Bertioga (Perb).
Muitos outros desconhecem o prazer de apreciar o rio Guaratuba ao desembocar na praia homônima, com mar inacreditavelmente transparente na maré baixa. E não imaginam que, a poucos metros da rodovia Rio-Santos, esteja a espetacular praia do Itaguaré, literalmente cortada pelo rio homônimo, também em área do Perb. Há também quem desconheça que a bem cuidada praia da Riviera de São Lourenço é aberta a todos. Antigamente muito frequentada, mas, desde 2012, fechada ao público, a Vila Inglesa da Usina de Itatinga, a primeira termelétrica do Brasil, criada em 1910, e o Forte São João, o primeiro do país, construído entre 1532 e 1547, são os locais históricos mais conhecidos da cidade. Já o povo guarani, anterior às duas atrações, poucas visitas recebe na Aldeia Rio Silveira, em Boraceia.
Mas uma nova circunstância desenha-se pela conjunção de vários fatores, e, até o próximo verão, deve começar a imprimir novos traços ao perfil turístico da cidade, como explica o prefeito Caio Matheus: “Nós precisamos saber explorar de maneira consciente o potencial de ecoturismo e todos os atrativos que temos. Nenhuma cidade da Baixada Santista possui identidade tamanha com a natureza como a nossa”. Diferentemente daqueles que apontam o Perb como um problema para Bertioga, um dos municípios ambientalmente mais bem protegidos do Brasil, ele acha que, “com esse limão dá para fazer limonada”. Está animado com a iminência da liberação do acesso ao parque, após a conclusão do plano de manejo, que definirá regras de uso da área de 93km², que deve acontecer entre julho e outubro próximos.
Além das outras nove trilhas catalogadas, por ora inacessíveis, novas poderão ser criadas e serviços receptivos de turismo devem ser estabelecidos em alguns pontos. Ney Carlos da Rocha, secretário municipal de Turismo, Esporte e Cultura, destaca: “O que falta é uma organização que transforme nossas atrações em produtos. A matéria-prima mais valiosa do turismo internacional, que é a natureza, nós temos. E possuímos nossa rica participação na história do Brasil. Em dois anos, devemos ter mudanças significativas”. Uma condição fundamental para o sucesso da empreitada é o plano de turismo que deve ser concluído até o fim de 2017, com a meta de eliminar a sazonalidade, concentrada no verão e na praia da Enseada.
Além de explorar o ecoturismo e a história da cidade, deve contemplar eventos nas várias facetas do turismo viáveis em Bertioga, como os esportes náuticos e de praia, pesca e surfe. Também deve contemplar atrações musicais no Forte São João, patrimônio histórico e cultural brasileiro, agora candidato a patrimônio cultural mundial, e no anexo Parque dos Tupiniquins, que, a médio prazo, deve ganhar uma concha acústica e um centro de cultura indígena. Um roteiro histórico incluindo as ruínas da Ermida de Santo Antônio do Guaibê, construída em 1560, do outro lado do canal de Bertioga, em frente ao forte, é assunto de conversa entre a Secretaria de Turismo de Bertioga e a Secretaria de Turismo do Guarujá. Reabrir Itatinga ao público é outra proposta a discutir.

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Paralelamente à elaboração do plano, a prefeitura já se prepara para fazer algumas modificações na cidade até o fim ano. A orla da praia da Enseada, no trecho do bairro Rio da Praia, será reurbanizada, e a rua Augusto Ribeiro Pacheco, que liga a rodovia à praia, no Jardim Raphael, será pavimentada. No Centro, a avenida 19 de Maio, entre a Rio-Santos à avenida Tomé de Souza, na praia da Enseada, terá a segunda pista liberada ao trânsito de veículos. Mas, o que deve causar impacto é a eliminação do estacionamento da avenida Tomé de Souza, que ganhará mão dupla de direção.
Segundo Caio Matheus, “os objetivos são gerar mais movimento e diminuir o turismo predatório. Diversas cidades adotaram esse modelo para resolver problema similar e a maioria obteve sucesso. Vamos completar com fiscalização. Queremos mais ordenamento na praia e na orla, privilegiando o pedestre e o ciclista”. Já preparado para o impacto que deverá provocar o anúncio da mudança de local da feirinha da Vila e da peixaria, atualmente localizadas à beira do canal de Bertioga, no âmbito da revitalização da avenida Anchieta, em 2019, ele argumenta que “ambas merecem espaço melhor”.
A curto prazo, pretende-se chamar a atenção de quem passa pela Rio-Santos com a repaginação da principal entrada da cidade. Até o próximo verão, um portal será criado na confluência da pista com a 19 de Maio. Ficará em frente ao terreno, agora gramado e com árvores plantadas, no qual, em 2018, devem ser criados um espaço multiuso e um centro de eventos. No Maitinga, já em agosto, um novo receptivo turístico deve entrar em operação, ao lado da nova sede do Departamento de Operações Ambientais, no fim do calçadão da Enseada, com passarelas sobre a mata de jundu rente à praia.
Além de estimular agências de turismo a criar ofertas de passeios na cidade, é necessário capacitar profissionais que lidam com turistas, principalmente, em meios de hospedagem e restaurantes, para que saibam indicar o que há de interessante para fazer em Bertioga. Na realidade, é preciso preparar os moradores de Bertioga para isso. Inclusive, este é um tema em pauta na Secretaria de Desenvolvimento Social, Emprego e Renda. Grande parte da população, composta, na maioria, por migrantes, desconhece os apelos turísticos da cidade. Uma solução sugerida por Lucélia Terezinha Avelino, coordenadora pedagógica da Escola Estadual Archimedes Bava e membro do Conselho Municipal de Educação, é levar os estudantes, a partir do ensino fundamental, para ver de perto as atrações naturais, culturais e históricas da cidade, e se apropriar delas.
Essa escola, no Indaiá, em parceria com o Conselho Municipal de Turismo (Comtur), abriga um projeto piloto, sob o comando de Adriana Veronesi Ferreira, representante da Câmara de Dirigentes Lojistas nesse conselho. Até o fim de 2017, uma série de palestras leva informações sobre o setor de turismo aos estudantes do segundo e terceiro anos do ensino médio. O objetivo é fazer com que, além de saber quais os atrativos de Bertioga, eles percebam que podem atuar como guias turísticos, trabalhando para agências ou como autônomos. “Uma aluna, cujo pai tem uma bicicletaria, por exemplo, já está preparando um roteiro para passeios de bike”, conta Adriana, que é proprietária da pousada Clariô e da Clariô Tur. A ideia, a partir de 2018, é replicar o projeto em outras escolas.
Nesse campo, outra boa notícia é a formação de 80 monitores de ecoturismo pela Fundação Florestal, administradora do Perb, em parceria com as secretarias de Meio Ambiente e de Turismo e o Serviço Social do Comércio (Sesc), concluída neste mês. Eles são peças essenciais nos planos de realização do potencial turístico de Bertioga e se somarão aos monitores ambientais, há alguns anos formados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), para levar visitantes ao parque, no qual só se entra na companhia desses guias credenciados.
Por trás de tudo, o fator econômico acelera os planos de realização do potencial turístico de Bertioga. Não precisa ser expert para prever que o movimento de queda da absorção de mão de obra pela indústria da construção civil, principal fonte de empregos da cidade, não retornará a patamares anteriores. A crise econômica nacional não permite. Nem o alto nível de proteção ambiental da cidade. As áreas urbanas resumem-se a 7% do território. Entretanto, só são permitidas edificações em 4%. Os 3% restantes têm que ser mantidos vegetados. Falta espaço para construir e faz-se necessário criar um novo mercado de trabalho. Do ponto de vista administrativo, o município precisa gerar renda, para que o Poder Executivo aumente a captação de impostos e tente desenvolver capacidade própria de investimento, que hoje não existe.
Em contrapartida, as tendências do mercado de turismo no Brasil são favoráveis às ambições turísticas de Bertioga. A redução do poder aquisitivo da população, com pouquíssimas exceções, não impede totalmente as pessoas de viajar. Mas, muitas estão revendo suas escolhas, em busca de destinos mais próximos e acessíveis.
Empresárias dos meios de hospedagem, como Adriana, Norma Kiyomi Higasi Morimoto, da pousada Morimoto, e Juliana Gonzales de Souza, da pousada Serramar, observam a mudança do perfil dos seus hóspedes, antes focados nas praias. Vem crescendo o percentual dos que perguntam sobre a história, a cultura e as reservas naturais da cidade, e querem saber o que há para conhecer e fazer. É a procura por ofertas turísticas em fase embrionária. Não é difícil imaginar que, devidamente atendidas, tendam a crescer fortes e saudáveis.

Estela Craveiro

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