Araquém Alcântara E a arte de fotografar a natureza no Brasil

Em agradável bate-papo com a revista Beach&Co, o premiadíssimo fotógrafo fala sobre sua vida e obra, e revela aspectos do seu mais recente livro, o 50º de sua brilhante carreira, a ser lançado esse ano

Nayara Martins

Araquém Alcântara dispensa apresentações. O fotógrafo, de 66 anos, é apontado como um dos precursores da fotografia de natureza no Brasil e encontra-se entre os melhores do mundo. Já percorreu os parques nacionais, a Amazônia, os sertões nordestinos, os povoados indígenas, o Pantanal, e quase toda a Mata Atlântica. Desde 1970, ano em que iniciou sua carreira, dedica-se a documentar e a proteger a questão ambiental no país.
Jaguaretê é o título de seu mais recente livro, o 50º de sua carreira, previsto para ser lançado em setembro desse ano, e que marca o início das comemorações dos 50 anos de sua vida profissional. A palavra jaguaretê, em tupi, significa “a onça verdadeira”, e o livro, que reúne as melhores fotografias desse animal, em diversos lugares do país, é uma celebração à brasileiríssima onça pintada.
Araquém foi o primeiro profissional a fotografar e a registrar todos os parques nacionais do Brasil. Esse trabalho resultou no seu livro mais vendido por aqui, o Terra Brasil, lançado em 1998, após dez anos de pesquisas. Em 2010, o título ganhou uma reedição com imagens inéditas e a cobertura de novos parques nacionais, num total de 68 visitados. A obra está na décima segunda edição e já vendeu 100 mil volumes.
Ao analisar a situação dos parques nacionais, nos dias de hoje, Araquém observa: “Infelizmente, essas áreas de unidades de conservação só estão no papel. Falta uma política pública ambiental voltada para melhor preservação e divulgação destes locais”. Na opinião do fotógrafo, para ser um bom profissional é preciso ter, em primeiro lugar, inspiração e criatividade, e, só depois, buscar o melhor equipamento; o aprimoramento da técnica é contínuo. “A fotografia é uma arte, uma linguagem plástica, autônoma. É um caminho de autoconhecimento, e cada um vai aprendendo com o tempo”. Todo o processo de aprendizado de tecnologia e técnica, segundo Araquém, pode levar, no mínimo, uma década.

Santos, o início da carreira
Araquém iniciou como repórter fotográfico no extinto jornal Cidade de Santos, do Grupo Folha, no ano de 1971, época em que ainda cursava a Faculdade de Comunicação, da Universidade Católica de Santos – Unisantos. No jornal, ele iniciou na cobertura do esporte amador e, mais tarde, passou a cobrir o Santos Futebol Clube. Sua primeira exposição aconteceu em 1973, no Clube XV, de Santos, com o tema Os urubus da sociedade, registro da ave pelas ruas da cidade.
No final da década de 1970, surgiu a sua grande inspiração para fotografar a natureza, no coração da Mata Atlântica, na Estação Ecológica da Jureia-Itatins. O convite partiu do ex-vereador e ambientalista de Itanhaém Ernesto Zwarg, uma das primeiras vozes a se levantar contra a depredação da Jureia. A ideia era ilustrar uma matéria de protesto contra a possível instalação de usina nuclear no local. Araquém conta: “Lembro com carinho de minha amizade com o ambientalista Ernesto Zwarg, um dos que mais lutaram pela preservação daquela região. O movimento contra as usinas foi uma das maiores vitórias ecológicas no país”.
Na opinião do fotógrafo, a Estação Ecológica da Jureia-Itatins, hoje sob nova ameaça de instalação de uma usina termoelétrica, em Peruíbe, corre um sério risco. “Isso porque este país não é sério, onde a biodiversidade virou uma moeda de troca. O Brasil está se desertificando devido à ganância. Para quem ama a natureza, isso é muito triste”, afirma.
Ele defende que a vigilância em áreas de proteção ambiental deveria ser uma ação constante, tanto por parte do poder público como da sociedade civil. A Estação Ecológica da Jureia, segundo Araquém, poderia receber mais investimentos do poder público e se tornar uma escola de educação ambiental a céu aberto. “Assim, os estudantes teriam a oportunidade para conhecer o ecossistema, além de ter mais consciência em relação à preservação”.
Araquém é considerado um profissional de referência nacional e serve de inspiração para novos fotógrafos. Um exemplo é o comerciante aposentado Eloi Marques, de Itanhaém, que admira e acompanha o seu trabalho. Ele participou de uma palestra promovida pelo Coletivo de Fotógrafos de Itanhaém, no mês de abril. “A palestra do Araquém foi fantástica, surpreendente. Faço parte do Foto Clube de Itanhaém. A fotografia para mim é um hobby, o que me dá um prazer enorme”, salientou o comerciante.
Eloi Marques, que foi proprietário de uma livraria por 45 anos, em Itanhaém, recebeu um autógrafo de Araquém no livro da Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, volume 1. Marques tem outros títulos do fotógrafo, entre eles, o primeiro livro lançado por Araquém – Jureia, a luta pela vida, lançado em 1988.

Livros, exposições e prêmios
Sua paixão por fotografia e pelas belezas naturais já lhe rendeu mais de 47 livros sobre temas ambientais; 22 livros em coautoria; 32 prêmios nacionais e três internacionais. Além de realizar 75 exposições individuais, inúmeros ensaios e reportagens para jornais e revistas nacionais e estrangeiros.
Em 2001, Araquém foi escolhido pelo The British Museum, de Londres, para produzir a capa do livro Unknown Amazon, que acompanhou uma grande exposição etnográfica sobre a Amazônia. Nesse mesmo ano, foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para realizar a exposição Mudanças Climáticas, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Também como convidado do Ministério do Meio Ambiente realizou, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a exposição Parques Nacionais do Brasil.
O livro Sertão sem fim conquistou o prêmio Fernando Pini de Excelência Gráfica e foi finalista do prêmio Jabuti e do prêmio Conrado Wessel 2010. Em 2011, o livro Araquém Alcântara Fotografias conquistou o prêmio Benny Prime Print Awards – categoria livro de arte, em Chicago, nos Estados Unidos. E ainda ganhou o prêmio Unicef Presença da Criança nas Américas, Colômbia, em 1981.
Araquém lançou, ainda, uma edição especial, como colaborador, para a National Geografic Society, com o livro Z, em 2008. Também foi o primeiro a realizar um ensaio sistemático sobre os ecossistemas e as unidades de conservação do país, trabalho que foi concluído após 22 anos de inúmeras expedições pelos sertões do Brasil. Possui fotos em acervos de vários museus e galerias, entre eles, o Museu do Café, em Kobe, Japão; Centro Cultural Georges Pompidou, Paris; Museu Britânico, Londres, Inglaterra; Museu de Arte de São Paulo (Masp); e Museu de Arte Moderna (Mam), de São Paulo, Brasil.

Oportunidade
Entre os workshops que Araquém tem realizado pelo país, um deles ocorrerá em Itanhaém, com aulas teóricas e práticas, previsto para o segundo semestre desse ano. As aulas práticas serão realizadas na Estação Ecológica da Jureia-Itatins, em Peruíbe. A promoção é em parceria entre a Associação Comercial de Itanhaém, o Coletivo de Fotógrafos de Itanhaém (Cofit) e o Instituto Ernesto Zwarg (IEZ).
Interessados em agendar ou participar dos workshops promovidos pelo fotógrafo podem entrar em contato com a assessoria de Araquém Alcântara, em São Paulo. O telefone é 11 3044 1013; e-mail araquem@arquem.com.br; aos cuidados de Nilda Gino.

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