Aqui e lá

Marcus Neves Fernandes

Tenho um grande amigo, engenheiro civil, que, quando viaja ao exterior, mesmo que seja por puro turismo, não perde a oportunidade de fotografar qualquer obra que encontre pelo caminho. A família faz troça, brinca, e diz que ele é capaz de virar as costas até ao Coliseu romano se, do outro lado da rua, houver um edifício em reforma.
Bom, brincadeiras à parte, eu não escapo dessa sina. Na memória do meu celular, no retorno das férias, costumo trazer imagens de todo o exemplo de desenvolvimento sustentável que encontro pelas ruas das cidades que visito.
E olha que nem preciso de muito esforço. Parece uma espécie de radar automático. O que os outros não reparam, salta à minha vista, me chama. E lá vou eu, por vezes sem perceber, me distanciando do passeio, do grupo, dos amigos e da família.
Às vezes, é um cartaz, quando, no centro de Roma, por exemplo, percebi a existência de um pôster chamando a atenção do público para as espécies de aves que podiam ali ser observadas. Em outras, é um totem com sacolas plásticas para que o cidadão faça a coleta de resíduos animais.
Mas, o que realmente chama a minha atenção são as lixeiras. Muitos não sabem, mas raras são as cidades em que há coleta de resíduos porta-a-porta, todos os dias da semana, como aqui, na Baixada Santista. Fora do Brasil, tal serviço, além de raro, é considerado um desserviço, um sistema que tende a alienar e deseducar a sociedade. Explico.
Nas cidades europeias, o cidadão leva os seus resíduos a um posto de entrega. E, obviamente, ele leva os secos (recicláveis) separados dos úmidos (matéria vegetal). Além disso, em várias cidades, os restos de alimento são descartados sem os chamados resíduos de banheiro, como absorventes, fraldas e papel higiênico. O objetivo é não comprometer a compostagem dos restos vegetais, que podem ser transformados em um adubo orgânico de alta qualidade.
Além disso, dependendo do tipo de reciclável, há ainda outras separações. Garrafas, por exemplo, são descartadas conforme a cor, o mesmo acontecendo com as resinas plásticas.
Por fim, temos resíduos como os eletroeletrônicos e as lâmpadas, que seguem outro caminho, no caso a logística reversa, ou seja, o fabricante, que colocou o produto no mercado, é responsável pelo seu recolhimento.
E aqui? Bom, no Brasil também há a figura da logística reversa (LR), prevista na lei que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos (12.305/2010). O único problema é que o legislador (deputados federais e senadores), por algum indescritível motivo, esqueceu-se de um detalhe: não estipulou prazo para a entrada em vigor da LR. Assim sendo, até hoje, seis anos após a lei ser sancionada pelo então presidente Lula, não há, por exemplo, nenhum posto para recolhimento de lâmpadas em toda a Baixada Santista. Curioso, não?
Aqui, em termos de resíduos sólidos urbanos (o popular lixo), o cidadão entende que a sua obrigação termina no momento em que coloca o saco de detritos na porta de casa ou no quartinho do condomínio. Pronto! A partir daí tem início a fantástica mágica do desaparecimento do lixo.
Com o tempo, de uma forma ou de outra, a tendência é que caminhemos para um modelo semelhante ao europeu. A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos, que permaneceu por inacreditáveis 21 anos (!) em análise no Congresso Nacional, já é fortemente influenciada pelas legislações do velho continente – talvez, só nos tenham faltado os legisladores europeus.
Lá fora, a grande tendência contemporânea nas maiores cidades do mundo não é a discussão sobre se usaremos aterros sanitários ou, quiçá, incineradores. Hoje, os esforços se concentram na não geração de resíduos e na redução do consumo e, por tabela, do flagelo e da estupidez do desperdício.
Aqui, o nosso desafio, na verdade, é encurtar esse lapso temporal e desacostumar o cidadão da sua atual comodidade.

Julho livre de plástico

Plastic Free July é uma campanha que nasceu em 2011, na Austrália, e, pouco a pouco, vem ganhando outros países. O objetivo é conscientizar para o banimento de vasilhames plásticos de uso único, como copos e garrafas, por exemplo. A campanha, que pode ser acessada no site abaixo, tem como logo uma tartaruga. Em tempo: os biólogos e veterinários do Aquário de Santos, espaço que acaba de completar 72 anos, concluíram um levantamento sobre todas as tartarugas cuidadas no parque nos últimos dez anos. Conclusão: quase 50% delas ingeriram plástico. Muitas morreram.
Consulte a campanha (em inglês): http://www.plasticfreejuly.org/

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