Amyr Klink, o homem e o mar

Poucos conhecem os mares como ele. Sob seu olhar de viajante, o velejador Amyr Klink fala sobre suas navegações oceânicas e o uso inteligente dos recursos naturais. Em uma conversa com a revista Beach & Co, afirma que a Baixada Santista tem potencial para o setor náutico, mas ainda falta vontade e investimento

 

Morgana Monteiro

Há 31 anos, Amyr Klink completava uma viagem, a primeira de pelo menos outras 40, que o destacou mundialmente: foi o primeiro e único navegador a realizar a travessia do Oceano Atlântico Sul em um barco a remo. A distância percorrida – 3.750 milhas náuticas, aproximadamente 7 mil quilômetros – levou exatos cem dias. O ponto de partida foi Lüderitz, na Namíbia – África. Klink remou todo o trajeto até chegar à praia da Espera, em Itacimirim, na Bahia.2003_9

O mais surpreendente neste e em outros projetos de navegação de Amyr não são a viagem em si e os destinos nada usuais. Em uma época em que “sustentabilidade” ainda nem era moda, Klink já era veterano em ações ambientais. Construiu todo o processo de navegação: desde a concepção do barco até a alimentação e o consumo racional de água. O desafio era e é, sobretudo, vencer intempéries com planejamento, criando soluções eficientes, lições essas que adotou na sua vida.

Para Klink, essas aventuras e as soluções encontradas para otimizar as viagens apontam para uma reflexão acerca de um problema real em nosso planeta: o consumo racional da água e dos outros bens naturais e finitos. “O Brasil é um país que tem um patrimônio natural tão vasto e não valorizado. A gente escuta o barulho das cachoeiras e não tem água doce tratada na torneira. Prego ideias polêmicas a respeito disso mesmo. Não sou a favor da venda de minério de ferro, por exemplo, que resulta futuramente em tragédias como a de Mariana”, comenta.

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O velejador consegue enxergar um “mar de oportunidades” quando fala do setor náutico e não apenas de suas viagens. Dentre suas ideias inovadoras, a construção de um estaleiro em Itapevi, interior paulista, no qual realiza a façanha de erguer de 25 a 30 embarcações diferentes

 

Amyr Klink é conhecido no mundo inteiro por suas ideias inovadoras, por criar para navegar. No entanto, para ele, estudar e planejar vai além do uso da técnica. Destaca que é impossível trocar o patrimônio humano por outro e, isso, o Brasil ainda precisa descobrir. Não se considera perfeccionista, mas admite que é preciso ser detalhista na construção dos barcos, afinal, cada mínima descoberta pode ser determinante. “Adoro brigar com o engenheiro naval porque não ele não teve a experiência prática com o barco. Eu tive. Não é só criar e executar, mas administrar o conjunto das encrencas que você fez. Tenho várias ideias, porém sou obrigado a sucumbir aos detalhes técnicos. Dependemos dos diferentes tipos de conhecimento que recebemos para que tudo saia da maneira que desejamos”, afirma Amyr.

O navegador tem projetos que são referência em vários lugares do mundo. Para ele, o importante é ter um legado de coisas feitas e não simplesmente usufruídas. “Não quero ter nada, quero saber como se faz. Acho saudável a ignorância que eu tenho. É isso que me faz construir barcos melhores do que os suecos fazem para navegar no gelo, por exemplo”.

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Outro feito de Amyr Klink é a Marina do Engenho, em Paraty, um ancoradouro-modelo que abriga 300 barcos, todos com água potável e luz elétrica, num corredor flutuante

As idéias inovadoras de Amyr seguiram além de suas expedições. Seu lado empresarial despontou, e hoje ele é um dos mais disputados palestrantes do país, escritor de best-sellers como Cem Dias entre Céu e Mar, que já vendeu um milhão de exemplares. De São Paulo, comanda a empresa AKPP, que atende clientes de dentro e, principalmente, fora do país. Construiu um estaleiro em Itapevi, interior paulista. Realiza a façanha de erguer de 25 a 30 embarcações diferentes. “São todos projetos malucos. Criamos nossos próprios instrumentos porque não fabricam no Brasil o que precisamos. São embarcações anfíbias, barcos de resgate, veleiros rápidos, verdadeiras cidades flutuantes. É basicamente uma atividade de investigação. No Brasil, só nosso escritório faz isso. A grande diferença é que viajamos há mais de 20 anos com equipamento que a gente desenvolve”.

Outro feito de Amyr é a Marina do Engenho, em Paraty, onde vive. Trata-se de um ancoradouro-modelo que abriga 300 barcos, todos com água potável e luz elétrica num corredor flutuante. Emprega 500 pessoas, muitas das quais faturam “bem mais que um gerente de banco”. E exemplifica: quem limpa fundo de casco cobra de R$500 a R$1000 reais por barco e tem até três serviços por dia, sem o estresse e a correria da cidade.

 

 

Baixada Santista e potencial náutico

O navegador se inflama quando fala sobre crise brasileira e acredita que a solução é simples: pode estar no mar. Com relação à Baixada Santista, diz estudar a região há muitos anos e considera um local estratégico para atividade náutica na América Latina, por estar próximo de São Paulo e Rio de Janeiro. “Me incomoda que, por tanto tempo, apostemos no extrativismo e tenhamos esquecido do setor náutico e do turismo no mar”. Vai além das atividades de estaleiros, por exemplo, que hoje possui cerca de 40 empresas desse tipo por todo o Brasil. Para Amyr, várias cidades aqui da região poderiam servir de base para embarcações de turismo, os chamados portos de lazer, a exemplo da marina que opera em Paraty.

“Cubatão tem enorme potencial para o turismo nos canais do manguezal; Bertioga, Guarujá e Santos também. Você investe e tem rentabilidade garantida, com o mínimo de impacto ambiental. Sempre cito o exemplo de Palma de Maiorca, uma cidade espanhola que fatura 20 milhões de euros por ano só alugando embarcações, fora manutenção, ajustes eletrônicos, seguros, etc. E esta região paulista é uma das mais atraentes do Brasil para o turismo náutico. Poderia gerar muitos empregos”, destaca. Para ele, um dos maiores problemas é o entrave burocrático do licenciamento ambiental.

Amyr destaca que a atividade náutica de lazer pode, sim, gerar tanta riqueza quanto o porto comercial. Ao percorrer o mundo em busca de novidades, percebeu que a tecnologia dos portos tem mudado, saindo das grandes cidades e avançando para alto-mar. Cita os da Antuérpia (Bélgica); Roterdam (Holanda); e Dolan (Londres), exemplos de eficiência comercial, porém, não deixam de atender o turismo náutico, gerando muito lucro. “Os portos estão saindo das grandes cidades. Em Santos, a meu ver, a saída seria transportar o porto para a região oceânica onde as manobras seriam mais rápidas, menos arriscadas, sem o problema de falta de calado. O antigo cais passaria a ser atracadouro de transatlânticos, pequenas embarcações, local de lazer. Mas ainda falta muita vontade política para isso. Somos um país que deu as costas para o mar”, desabafa.

Amyr Klink consegue enxergar um “mar de oportunidades” quando fala do setor náutico e não apenas de suas viagens. Mais do que os objetivos em si, a maneira de alcançá-los – seja em suas travessias e ou na implantação de negócios – é o que parece encantar o navegador em tudo que faz. As mudanças pelas quais passou só o fizeram crescer. “Fiz 36 viagens após meu casamento, 12 delas com minha esposa, que é ex-velejadora, e oito com minha família, incluindo minhas filhas. Me orgulho de planejar, planejar, planejar… Somos o único grupo que nunca perdeu um tripulantes sequer em 25 anos de viagens. Nunca pedimos açúcar emprestado em uma base”, comenta.

O velejador considera a Baixada Santista um local estratégico para atividade náutica na América Latina, por estar próxima a São Paulo e Rio de Janeiro. Abaixo, Cubatão, Bertioga e Guarujá , dentre as cidades citadas

O velejador considera a Baixada Santista um local estratégico para atividade náutica na América Latina, por estar próxima a São Paulo e Rio de Janeiro. Abaixo, Cubatão, Bertioga e Guarujá , dentre as cidades citadas

Para Klink, suas trajetórias mar adentro não são um processo de autoconhecimento. Para ele, não existe solidão quando se está no Oceano Índico, e ainda faltam três meses de navegação. “Não dá tempo para isso. É o momento em que você identifica quem são os seus provedores, as pessoas invisíveis que trabalham para você e passa a valorizar todas elas. Quem é arrogante, atravessa o oceano sozinho e não chega ao ponto final”.  Amyr termina a entrevista com uma afirmação bem pertinente: “O mar é um processo de filtragem de gente chata”.

Breve biografia

Amyr Klink é natural de São Paulo, filho de pai libanês e mãe sueca. Começou a frequentar a região de Paraty (RJ) com a família quando tinha apenas dois anos de idade. Essa cidade histórica do litoral brasileiro é o lugar que o inspirou a viajar pelo mundo. Casou-se em 1996 com Marina Bandeira, com quem tem as filhas gêmeas Tamara e Laura, nascidas em 1997, e a caçula Marininha, nascida em 2000.

As principais navegações

 

1984

Travessia do Atlântico Sul a remo – navegação solitária

10 de junho a 18 de setembro de 1984 (100 dias)

 

A Invernagem – navegação solitária

31 de dezembro de 1989 a 4 de outubro de 1991 (642 dias)

 

1998

Circunavegação polar – navegação solitária

31 de outubro de 1998 a 8 de fevereiro de 1999 – 88 dias

 

2002

Viagem experimental

Novembro de 2001 a janeiro de 2002

 

2003

Circunavegação polar – navegação tripulada (5 pessoas)

Dezembro de 2003 a fevereiro de 2004

Livros lançados

– Cem dias entre céu e mar

– Paratii: entre dois polos

– As janelas do Paratii

– Mar sem fim

– Linha D´água

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Revista Beach&co