Amor em duas rodas

Sheylla e Kennedy pedalaram por quase três mil quilômetros a partir de Dublin, na Irlanda, a Lisboa, em Portugal. Eles planejaram uma nova forma de viajar, mais prazerosa, barata e saudável

Aline Porfírio

Foi durante um simples passeio de bicicleta pelas ruas da Irlanda, país onde moravam para um intercâmbio de línguas, que Sheylla Fiama, 24 anos, e Kennedy Faria de Moura, 27, pensaram que aquele meio de transporte deveria ser melhor aproveitado. Sheylla conta que, até chegar em Dublin, ela não tinha o hábito de praticar esportes, e se sentia até sedentária. Pela facilidade de locomoção e clima, a cidade irlandesa incentivou o casal à nova prática e, assim, ambos abriram horizontes e pensaram: “Por que não usar a bicicleta para viagens mais longas?” Acabava de nascer aí um dos maiores desafios da vida do casal paulista, um planejamento de viagem que consistia em mais de três mil quilômetros de pedalada.
A publicitária Sheylla explica: “Quando tivemos a ideia, estávamos indo à praia de bike; tínhamos acabado de pedalar 50 quilômetros, ou seja, não estávamos tão mal. Isso nos animou para chegar em casa e traçar um roteiro”. Ela e Kennedy informaram-se sobre o assunto e se sentiram motivados; após algumas semanas de pesquisa, finalmente decidiram a rota. O casal traçou como objetivo sair de Dublin e ter como destino a capital de Portugal, Lisboa. São 2.972 quilômetros entre estradas e balsas.
O casal saiu de Dublin no dia 17 de outubro de 2016, com a meta de chegar à cidade lisboeta em 14 de novembro. Eles se prepararam com roupas adequadas para o ciclismo e também para o frio. Nessa época do ano, a Europa começa a receber os ventos de inverno e as temperaturas caem durante a noite, em torno de 10 graus. O casal também se abasteceu de um kit para cozinha de camping e uma barraca para acampamento. “Estávamos tensos, porém, muito animados. Viajar por conta própria, podendo parar a cada cidadezinha interessante, tirar uma foto de cada vista bonita, isso estava se tornando o nosso sonho de vida”, explica Kennedy.
Porém, como toda aventura tem contratempos, logo no segundo dia de viagem, quando passavam pelo País de Gales, a bicicleta de Sheylla teve os dois pneus furados. “Nossas bikes são fixas, com pneus finos, ou seja, bicicletas sem marcha, ideal para lugares planos e sem muitas dificuldades, o contrário do que encontramos muitas vezes por aí, diferenças de piso, terrenos etc. A pista estava muito molhada e com galhos de árvores, uma verdadeira arma para nossos equipamentos amadores”.
Depois de horas tentando consertar, sem sucesso, o casal encontrou um galês disposto a ajudar. Martin ofereceu a casa para que o casal passasse a noite. “Essa foi a parte mais tensa e intensa da viagem. Era logo no começo, estávamos com medo de não conseguir cumprir o objetivo, e, de repente, fomos surpreendidos pela fé na humanidade. Encontramos um abrigo e, também, nosso primeiro dos muitos amigos da viagem”, conta Sheylla.
O casal percorreu cinco países: País de Gales, Inglaterra, França, Espanha, e Portugal. Foram centenas de cidades e lugares maravilhosos, dos quais desfrutaram cada segundo. Porém, dois países marcaram mais essa viagem, segundo eles, e ambos por situações distintas. Kennedy explica que Portugal é como se fosse uma segunda casa. “Conhecemos muito de Portugal e cada pedacinho remetia à história, cultura, culinária, tudo muito próximo do Brasil. Foi emocionante, me lembro de visitar uma cidade e pegar frutas diretamente do pé na rua, gosto de infância”.
Já quando passavam pela Espanha, o casal reservou um quarto na casa de uma senhora búlgara, moradora na Espanha fazia 12 anos. Sheylla lembra que, ao reservar a hospedagem pela internet, reparou na foto da senhora que oferecia a vaga: loira, semblante iluminado e disposto. Mas quem abriu a porta da casa foi uma senhora debilitada, sem cabelos, mais uma vítima do câncer. Stevetana enfrentava uma doença severa, mas decidira abrir as portas de casa para novos visitantes, assim teria companhia e novos amigos para passar o tempo. “Aquilo me tocou muito, eu acabei fazendo parte da vida dela e ela da minha. O verdadeiro intercâmbio acontece assim, nos esbarrões inesperados que a vida nos dá, colocando novas pessoas no nosso caminho. Isso é gratificante”, conta Sheylla.
O casal chegou ao destino final três dias antes do prazo estipulado. Conseguiram manter ritmo e, ainda assim, aproveitar cada pequena cidade que encontravam. Da capital portuguesa, o casal embarcou em um cruzeiro para Recife, capital pernambucana. “Nossa intenção era chegar antes do Natal, em Jundiaí, nossa cidade, para fazer uma surpresa à família. Estávamos fora de casa há quase 10 meses”, disse Sheylla. Porém ela e Kennedy, infelizmente, não encontraram condições apropriadas nas estradas nordestinas até o interior de São Paulo, então, por segurança, e para preservar o equipamento, decidiram embarcar em um avião com destino a São Paulo.
Nas palavras de Kennedy, “curtimos um pouco da maravilhosa Recife, afinal, estávamos com saudades de praia e verão, e, logo depois, embarcamos. Quando cheguei na porta de casa não acreditei, nós havíamos percorrido cinco países, cruzado o Atlântico, e agora estávamos em casa, finalmente. Valeu muito a pena”.
Sheylla destaca que a experiência de vivenciar tudo de perto e de conhecer a história de pessoas comuns a fez mais feliz e sentiu, nisso, o verdadeiro sentido de vida que buscava. “O maior conselho é: planeje-se, viva, se você tem um objetivo, o universo alinha, o restante acontece naturalmente. Não há nada de que eu me arrependa, precisamos das coisas boas e ruins para nos mantermos fortes e valorizarmos o que realmente importa”.

De fusca
Essa não foi a primeira aventura de Sheylla e Kennedy. Em 2014, o casal paulista saiu de Jundiaí, interior de São Paulo, com destino ao Uruguai, a bordo de um Fusca azul ano 1978, apelidado pelo casal de Tim. Sheylla conta que eles costumavam dirigir de manhã até a noite, e, em três dias, cruzaram o Sul do Brasil e chegaram a Buenos Aires. “Lembro-me que chegamos lá um dia antes da final da Copa do Mundo, que foi entre Alemanha e Argentina. Como éramos brasileiros, foi impossível não ouvir piadas com o famoso 7×1 que levamos. Um argentino nos ofereceu um refrigerante da marca 7up”.
Saindo de Buenos Aires, o casal pegou o buquebus, uma espécie de balsa, para cruzar o rio Del Plata. Logo eles chegaram ao destino final, Montevidéu, capital do Uruguai, uma cidade que impressionou pelas belezas naturais, arquitetura e estilo de vida. Ao todo, foram cinco mil quilômetros rodados sem nenhum imprevisto entre o casal e o fusca, em 10 dias de jornada.
Por enquanto, o casal voltou à rotina, no Brasil, já que estavam estudando fora do país. Mas já pensam em sua nova aventura. “Vamos deixar as bicicletas descansarem, pois elas foram muito guerreiras. Agora, estamos planejando mais uma rota com o Tim, nosso fusca valente”, enfatiza Sheylla.

Related News

Comments are closed

Revista Beach&co