A moral do lixo

Leis, publicidade, campanha… Ainda não são suficientes para provocar o envolvimento da população com o descarte correto do lixo. Existe uma fórmula?

Dentro de aproximadamente 60 dias, lá pelo mês de julho, os moradores de Santos irão se deparar com uma novidade. Uma nova lei, que torna obrigatória a separação entre o chamado lixo reciclável e o lixo orgânico. Aliás, essa nova lei utiliza outra nomenclatura: resíduo seco (para nominar os recicláveis) e resíduo úmido (para o tal orgânico).
Muito se discute como se dará a fiscalização, ou seja, como o Poder Público irá coibir (intimar e multar) o cidadão que não fizer a sua parte, que é a separação dos resíduos em casa, antes de colocar os restos na porta para o recolhimento pelo caminhão da coleta.
Hoje, basta um passeio de meros cinco minutos, em qualquer bairro da cidade, para se chegar à constatação, decepcionante, de que a maioria das pessoas, algo como duas em cada três famílias, não separa, ou faz a separação dos resíduos de maneira superficial – para dizer o mínimo.
Curiosamente, a nova legislação santista (Lei Complementar 952/2017) deve, em breve, ser copiada pela maioria dos municípios da região. Vários são os membros de legislativos e executivos das nove cidades da Baixada que já se debruçam sobre os mais de 25 artigos da lei, apresentada na Câmara de Santos pelo vereador Benedito Furtado (PSB).
Obviamente, a nova legislação, por si só, não irá aumentar os pífios índices de reciclagem. É algo muito mais complexo do que imaginam nossos governantes e até mesmo nossos cientistas. Quer um exemplo?
Recentemente, tomei conhecimento de um estudo feito no Canadá, que recomenda, enfaticamente, a adoção de contentores como uma das maneiras mais eficazes para o aumento da reciclagem. Em dez semanas de estudo, os autores concluíram que a adoção dessas caçambas seria capaz de gerar um incremento de 140% (!) no recolhimento de plásticos, papel, vidro e metais.
O trabalho se baseia em dois ‘fatos’: o primeiro diz que altos índices de descarte correto (e consequente reciclagem) estão diretamente ligados à logística, ou seja: quanto mais fácil descartar, maior é a taxa de reaproveitamento dos resíduos sólidos urbanos. O segundo ‘fato’ é psicológico. Segundo os cientistas canadenses, já há, ao longo dos últimos 20 anos, informações suficientemente disponíveis sobre a importância e os benefícios da reciclagem. Agora, portanto, é necessário “facilitar esse processo, torná-lo mais cômodo”. Em outras palavras, colocar contentores o mais próximo possível do cidadão.
Em Santos, os contentores também foram adotados. Havia os laranjas (para resíduos secos) e os azuis, (para os úmidos). As taxas aumentaram? Não, muito pelo contrário – bastava um único despejo incorreto de restos de comida nos contentores laranja para contaminar e inviabilizar todos os recicláveis ali presentes. Foram banidos.
O que isso significa? Que temos uma sociedade menos informada sobre reciclagem do que a canadense? Arrisco dizer que não. Talvez haja menos engajamento, mas o tema reciclagem e seus benefícios são bem compreendidos pela maior parte da comunidade, como vários estudos e enquetes costumam comprovar.
Para explicar essa aparente contradição entre o que propõe o estudo canadense e o que se verificou na prática, em Santos, recorro à filosofia, mais especificamente, à ‘ética deontológica’ de Immanuel Kant.
Resumindo, Kant diz que o importante em uma ação é a intenção. É a intenção, a qualidade dela, que determina a moralidade da ação. E quando essa boa intenção é percebida, quando é considerada moralmente valiosa, seu conteúdo acaba sendo incorporado pelo grupo.
Há anos já sabemos que uma mudança concreta na relação entre o cidadão e seus resíduos é, acima de tudo, uma mudança de comportamento – aliás, as mais difíceis entre todas as mudanças.
Assim sendo, o fracasso no envolvimento da sociedade com a reciclagem está diretamente ligado ao descrédito com a atuação pública.
Ao não enxergar forte conteúdo moral, ou vê-lo se degradar mais e mais ao longo das últimas décadas, a sociedade não se engaja, torna-se amorfa, apática, insensível. O que, aliás, tem consequências que vão muito, muito além do lixo.

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