A capital dos casamentos

Natureza exuberante, especialização de fornecedores, preços competitivos e melhorias nos acessos contribuíram para fazer de Ilhabela a favorita dos noivos

Estela Craveiro

Casar na praia é um sonho para muita gente. Em dez anos, esse desejo fez de Ilhabela a capital dos casamentos, como a cidade do litoral norte paulista começa a ser conhecida. Não só pelo cenário paradisíaco que apresenta, mas pela profissionalização dos serviços, em decorrência da crescente demanda. Fator que reduziu custos e acelerou um círculo de desenvolvimento promissor. Pois noivos continuam e continuarão sonhando se casar na praia.
Aspectos práticos, contudo, pesam bastante. A localização foi decisiva para a farmacêutica Livia de Oliveira Kawano e o administrador e surfista Luciano Mitsuo Kawano, da capital paulista, que se casaram no Píer 151, em agosto de 2017, ao qual os convidados, hospedados no entorno, chegaram a pé. Diz Livia: “Ilhabela fica a uma distância razoável de São Paulo e do Vale do Paraíba, de onde veio grande parte dos nossos convidados, e conta com uma estrutura muito sólida e bem preparada de elaboração de casamentos”.
Isso pesou para a gerente comercial Ana Paula Passarelli e o empresário André Castro Neves, moradores de São Paulo que, em abril passado, uniram-se no Sea Club. “Sempre achamos que Ilhabela é mágica, e oferece uma excelente estrutura para casamentos, o que nos motivou bastante. E como casamos no feriado de 21 de abril, pudemos curtir o fim de semana prolongado junto com a família e amigos”, ela conta.
Essa oportunidade atraiu também a psicóloga Juliana Nascimento e o administrador Thierry Ferraz, da capital paulista, que se casaram no feriadão de 1º de maio de 2017, no Espaço Galileu. “Adoramos o mar. Não podia ser mais a nossa cara. E o fato de ser na ilha nos deu a oportunidade de passar três dias com pessoas que amamos. A festa começou na sexta-feira e só acabou na segunda!”, lembra Juliana.
Para o empresário João Francisco Barbosa Jorge, que se casou com a psicóloga Livia Monseff Barreto, no Píer 151, em junho passado, o fator determinante para a escolha foi a boa qualidade turística da cidade: “Já havíamos estado em Ilhabela em duas oportunidades e adoramos! Tem belas paisagens, ótima gastronomia e percebemos um ambiente seguro e organizado para passeios”.
O resultado foi uma grande farra durante seis dias, entre o feriado de Corpus Christi e o aniversário de Ribeirão Preto (SP), a cidade deles. “Nós nos encontrávamos todos na praia e aproveitamos intensamente. Fizemos várias confraternizações, jantares, passeios e até jogo de futebol oficial do casório! Isso criou uma atmosfera magnífica com nossos convidados”, lembra, enternecido, o empresário, que acabou surpreendido pela noiva, que chegou de barco.

Despojados e sofisticados
Mas quem são os noivos que escolhem Ilhabela para se unir? “Quem quer um casamento fora do convencional”, vaticina Aline Frey, sócia do Marakuthai, o mais famoso restaurante da cidade que, desde 2010, recebe casamentos. “Gente jovem querendo algo mais despojado, mas com requinte”, define Michele Marcondes, cerimonialista desde 2010. “Na maioria, são casais na faixa dos 30 anos e muitos já moram juntos”, identifica a cerimonialista Isabel Costa, com mais de 300 casamentos no currículo. “Quem é das classes A e B +”, aponta Elena Canestrelli, proprietária do Píer 151, palco para casamentos desde 2004. “São noivos que fariam um casamento bem maior na cidade onde moram, e, em Ilhabela, fazem um casamento menor e charmoso”, afirma a decoradora Mara Perez, com 15 anos de experiência. “Gente que gosta de coisas poéticas e exóticas”, avalia Juliana Pinheiro Holzhausen, proprietária da rotisserie Donna Bela, da qual saem bolos para casamentos e bem-casados desde 2003.
As preferências dos noivos confirmam essa tendência exótica. Nos nove anos do bufê Bendita Cozinha, frutos do mar são os campeões dos pedidos, diz a banqueteira e sócia Ivy Valente. No Marakuthai, o estilo da casa, um mix das gastronomias brasileira, tailandesa e caiçara, predomina na escolha do cardápio, em detrimento dos pratos clássicos. Os nakeds cakes, cheios de frutas, continuam em alta, observa Juliana, e os seminakeds, recobertos com massa americana aplicada rusticamente, começam a ganhar espaço, nota a confeiteira Ana Maria, dona do Ana Maria Bolos, que abastece casamentos desde 2010 com bolos, doces e bem-casados.
Os nubentes são fãs da diversão. Convidam, em média, 200 pessoas. As festas duram até dez horas, a pista de dança ferve, e não economizam em som e iluminação. Modernos, capricham no quesito registro, revela Sandro Marcos, da Invibe Films. Fotógrafo há 30 anos, desde 2010 registra casamentos em Ilhabela, também em vídeo. Conta que a maioria dos casais cria sites para todos acompanharem os preparativos, recheados de fotos, claro, pedem réplicas menores do álbum de fotografias impressas para seus pais, e adoram fazer o ensaio fotográfico pré-wedding, antes do casamento, cada vez mais solicitado.
Os noivos de Ilhabela vêm de Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Goiás, e até do Rio de Janeiro e Tocantins, mas, principalmente, do interior e da capital paulista. E muitos do exterior, quase sempre casais formados por um estrangeiro e uma brasileira, que já vivem juntos em outros países e querem dar uma festa para os familiares da noiva; eles encontram em Ilhabela o local perfeito para passar alguns dias com eles e ainda curtir a viagem. Como muitos outros casais.
Como uma onda
Ricardo Fazzini, secretário de Turismo de Ilhabela, que já ocupou esse cargo entre 2001 e 2008, lembra que a tendência de casar em Ilhabela começou por volta de 2004, com o trabalho pioneiro da cerimonialista Marcia Vero. Mas saía caro. Era preciso levar literalmente tudo de São Paulo para lá. Como fez a apresentadora Luciana Gimenez, que, em 2006, casou-se com o empresário Marcelo de Carvalho na fazenda de uma amiga, e chamou a atenção para Ilhabela, recorda a cerimonialista Isabel Costa, dona da Ilhabela Vip: “A partir do boom de notícias gerado pelo casamento dela, a procura aumentou, espaços e fornecedores começaram a se profissionalizar, e os custos, a cair”. Não que sejam menores do que em outras cidades. Mas são competitivos.
Junto com a economia brasileira, com as melhorias da rodovia dos Tamoios, principal acesso à ilha, e à presença da cidade em feiras de casamentos, o setor evoluiu em Ilhabela com a fluência de uma onda, ganhando novas feições e ampliando a variedade de ofertas. Isso também aumentou a concorrência, inclusive de empresas de outras cidades que lá se instalaram. Mas são vários os fornecedores que não dão conta da demanda. A Donna Bella só faz bolos e bem-casados para três casamentos por sábado. O bufê Bendita Cozinha atende apenas a duas festas por dia. A Ana Maria Bolos aceita pedidos para quatro festas a cada semana. E o grupo Marakuthai aluga o espaço do seu restaurante para casamentos apenas uma vez por mês. Se dependesse da procura, fecharia todos os sábados, diz Aline.
Hoje, afirma a cerimonialista Iara Nunes, há 18 anos no ramo, faz-se um casamento inteiro só com fornecedores da própria cidade: “A ilha se tornou um local muito bom para casar. Tem de tudo. E há muitos lugares disponíveis, em todas as faixas de preços”. João Cappa, que fotografa casamentos desde 2009, e hoje tira deles 80% do seu faturamento, percebe que “praticamente não existe mais baixa temporada em Ilhabela. Todo fim de semana tem várias festas, e a cidade está sempre cheia”. Chega a ter casamentos até na temporada, inconveniente, por causa dos preços mais caros de hospedagem, embora as estações preferidas sejam o outono, o inverno e a primavera, com destaque para os meses de maio e setembro.
Casamentos tornaram-se vitais para muitos negócios. Um deles é o Píer 151, que oferece pacote completo para 50 festas por ano, e, com eles, alavanca o movimento do hotel Real Villa Bella e do bufê Marina Pontes Gastronomia, parte do grupo, conta Elena. “Para nós, e para Ilhabela, casamentos são importantes. Movimentam toda a economia da cidade, trazem público de poder aquisitivo bom, familiar, e que, muitas vezes, retorna, o que é bem interessante”, ela avalia.
É inegável que, em 2017, os reflexos da crise financeira nacional surgiram, com uma queda na procura aqui, parcimônia nas escolhas ali, às vezes festas menores, embora nem todos os fornecedores tenham notado. A recuperação já se anuncia com a elevação do volume de contratos fechados para os próximos dois anos, argumentam os otimistas, mas é de se esperar um ritmo moderado na aceleração dos negócios, ponderam os cautelosos.
Atento a tudo, com a experiência empresarial de quem já foi sócio do Sea Club, cenário de muitos casamentos, e do Bendita Cozinha, Ricardo Fazzini informa que, em 2018, a prefeitura de Ilhabela levará o município de volta às feiras de casamentos, e investirá na qualificação dos empreendedores locais em gestão empresarial, junto com o Sebrae. A base da convicção dele para apoiar e estimular esse segmento repousa na certeza de que casar, em Ilhabela, jamais deixará de ser um charme, e o empresariado local está muito bem preparado: “Hoje, aqui, nada se improvisa”.

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