A Biquinha volta para nós

Famosa desde 1553, utilizada, na época, como local de aulas de catequese aos índios, ministradas pelo padre José de Anchieta, a Bica da Fonte do Povoado, mais conhecida como Biquinha, abre-se ao público revitalizada e com a tradicional feira de doces

Luciana Sotelo

Em 20 de janeiro deste ano, durante a semana de aniversário de São Vicente, que completou 485 anos, foi entregue a tão esperada revitalização da praça da Biquinha de Anchieta, um bem cultural, abandonado por quatro anos devido a um incêndio, ocorrido em 2 de março de 2013, que destruiu os quiosques e toda estrutura local.
O novo espaço conta com a estátua de Padre Anchieta, restaurada, e sinalização do local, adequação do solo, limpeza e pintura. Também foi feita uma parceria com a Sutaco (entidade ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do estado), para implantação de dois pavilhões, um para os doces e, outro, para o desenvolvimento de projetos culturais. Em uma segunda fase, objetiva-se reconstruir a praça da Biquinha, mantendo suas características para a valorização dos pontos históricos.
A reabertura da Biquinha é fundamental para fomentar o turismo, cultura e economia, já que muitas famílias vivem do trabalho realizado no local. Conforme estimativas da Secretaria de Cultura de São Vicente, nos primeiros 30 dias de atividade, mais de 50.000 mil pessoas visitaram o local. O secretário de Cultura Fábio Lopez afirma que “a Biquinha faz parte da história da cidade e vamos explorar bastante esse contexto”.
A retomada do comércio de doces foi outro ganho. Cocadas, bolos variados, doces de festa e muitas outras guloseimas fazem parte do cardápio coletivo da Biquinha. Em cada banca, um ingrediente especial, um segredo de família, dá o sabor de quero mais, que torna as delícias irresistíveis.
Joanira Martins, doceira e vendedora há 50 anos, quase não acreditou quando soube da novidade. Ela chegou à Biquinha aos 7 anos, para fazer parte da equipe da família, que já atuava no espaço. “Desde o início da minha vida, esse lugar tem um significado todo especial para mim”. Não é para menos que ela se empenha na produção, hoje, com a ajuda da filha. “Eu faço os doces pequenos e ela faz os bolos. Trabalhamos em harmonia para tornar nossos produtos cada dia melhores. E ainda mais estando de volta, é uma motivação sem igual”.
Para ela, não existe ponto de venda melhor. “Nosso doce tem relação direta com a água da Biquinha. Não tem como separar. Quem vem pegar a água, aproveita para comer um doce com a gente”. Por causa dessa equação, Joanira revela que já conseguiu recuperar pelo menos metade da clientela. “O pessoal está voltando e isso é maravilhoso”.
Atualmente, sete comerciantes marcam presença, num total de 14 possíveis. As barracas funcionam todos os dias, das 14h à meia-noite. Nosalva Ferreira de Souza é fã antiga das iguarias oferecidas. “Vinha muito aqui nos bons tempos da Biquinha, comia os doces, levava para casa, era uma delícia. Esse passeio é uma espécie de tradição da família”. Ela veio da área continental de São Vicente, acompanhada do neto João Vitor, só para conferir o novo formato. Ele adorou o roteiro da vovó e aproveitou para experimentar um espetinho de morango com chocolate.
Luciana Pereira Silva, permissionária há 20 anos, tem nas cocadas e nos bolos o carro-chefe. “Venho de uma tradição de 65 anos; minha sogra, já falecida, era antiga aqui no ramo. Criou filhos e netos com os frutos desse trabalho. Ainda hoje, temos três barracas da família”. A maratona gourmet de Luciana começa às 6 da manhã, no preparo dos doces para o dia. “Oferecemos tudo fresquinho. A ideia é que tudo volte a ser como antes. Tudo que oferecíamos, tinha uma boa saída”. Para melhorar ainda mais, ela tem um pedido: “Peço que a prefeitura faça os nossos boxes novamente, naquela estrutura, conseguimos acondicionar melhor os doces. Alguns fregueses reclamam da falta da vitrine, de os produtos ficarem expostos”.

Related News

Comments are closed

Revista Beach&co