Faça o que eu digo…

Nos últimos anos, diversos conglomerados globais tentaram pegar carona em temas ambientais, mas por outro lado, boa parte deles manteve seus negócios nada amigáveis à preservação

Marcus Neves Fernandes

Atenção, leitor, para as declarações a seguir. Elas foram feitas há exatos 26 anos, em 1991, quando Fernando Collor era um presidente em queda livre, a Guerra do Golfo teve início, morria Fred Mercurye, Ayrton Senna ganhava o seu último título.
– As mudanças climáticas provocarão “variações muito altas de temperatura, inundações, fome extrema”, atingindo o mundo inteiro caso se continue a utilizar energia fóssil.
– É preciso “adotar medidas imediatas, porque, embora não se possa afirmar inequivocamente a existência do aquecimento da Terra, muitos acreditam que aguardar para comprová-lo pode ser uma atitude irresponsável”.
– “As ilhas tropicais que, hoje (1991), mal aparecem na superfície da água, se tornarão inabitáveis, para depois serem cobertas pelas águas (…) os lençóis subterrâneos das terras litorâneas baixas do mundo, indispensáveis para a agricultura e o abastecimento urbano, serão contaminados”.
Há 26 anos, essas e outras afirmações bem que poderiam ter sido feitas por um cientista, um ambientalista ou, quiçá, um ecochato. Mas, na verdade, essas frases fazem parte de um vídeo (VHS, lembram-se dele?) distribuído para escolas pela Shell!! Vídeo este que acaba de ser redescoberto por uma agência de notícias holandesa.

Parabéns!
Visto em perspectiva, ele suscita, de imediato, duas reações. A primeira é de ‘parabéns!’. Parte das previsões já se concretizaram e as demais estão, digamos, bem encaminhadas. Já a segunda conclusão nós podemos resumir, recorrendo a um adágio muito popular: ‘Faça o que eu digo, não faça o que eu faço’.
Nestes últimos anos, diversos conglomerados globais tentaram pegar carona em temas como aquecimento global, mudanças climáticas, extinção da fauna e flora, subida do nível dos oceanos, acidificação do mar, recrudescimento de doenças, aumento nas ondas de calor, frio, episódios mais frequentes e intensos de chuvas torrenciais, secas prolongadas e, consequentemente, queda na qualidade de vida.
Todavia, boa parte dessas empresas, ao longo desse último quarto de século, manteve o pé firme em seus negócios nada amigáveis ao meio ambiente. Continuaram acelerando novos investimentos e inaugurando unidades industriais tradicionais, baseadas em energias fósseis, enquanto apresentavam ações supostamente sustentáveis aqui e ali, alicerçadas e amplificadas com boa dose de marketing. Quer um exemplo?
Há poucas semanas, o jornal The New York Times (EUA) divulgou uma reportagem sobre aumento no desmatamento da Amazônia. Entre outros, citou a Cargill. O texto informa que a empresa angariou simpatia mundial, entre cientistas e ambientalistas, ao assinar um compromisso de não mais adquirir soja oriunda de áreas de floresta desmatada. Mas, na prática, não tem sido bem assim.
A reportagem concluiu, entrevistando agricultores na Bolívia e no Brasil, que, enquanto fazia tais promessas, a Cargill aumentava freneticamente as encomendas, inclusive em regiões recentemente desflorestadas. Um modus operandi já observado em 2006 pelo jornal The Guardian (Inglaterra), que apontou a empresa, ao lado das maiores redes de fastfood, como a principal indutora da supressão vegetal na Amazônia. Um detalhe: em 2015, pela primeira vez em quase dez anos, o desmatamento na Amazônia cresceu.
Diante dessa realidade, a redescoberta do vídeo da petrolífera, agora sarcasticamente apelidado de ‘A Shell sabia’, é mais do que oportuna. É emblemática. Não significa simplesmente demonizar esta ou aquela empresa. Significa ter em mente que ainda há um enorme fosso entre discurso e prática.
A Shell afirma que, ao longo dos últimos 26 anos, investiu em energias alternativas, como realmente o fez. Porém, no mesmo período, destinou mais de 20 milhões de euros para convencer ou pressionar (lobby) contra a adoção de políticas destinadas a frear a mudança climática, segundo pesquisa da ONG britânica InfluenceMap, publicada pelo jornal El País (Espanha). Uma vela pro santo outra…
Não posso deixar de imaginar a cena em que executivos de grandes empresas riem após elucubrarem tais artimanhas. E no estilo Chapolim, lá da década de 90, pergunto: quem poderá nos salvar? Em primeiro lugar, o Estado. Justamente ele, que muitas correntes políticas querem que seja, cada vez mais, mínimo. Lembro, porém, que do ponto de vista da fiscalização, o Estado já é mínimo há muito tempo. Basta ver o que acontece no nosso dia a dia ou nas reservas e estações ambientais. Quer um exemplo?
Há poucas semanas, uma equipe de biólogos do Aquário de Santos foi até a Laje, um arquipélago a 45 quilômetros do continente, para soltar cinco tartarugas. E, ao chegarem nesse parque estadual marinho, encontraram o quê? Pescadores e suas lanchas de final de semana, que passariam incólumes se pelo menos tivessem lido, nos jornais, que haveria tal soltura em um local em que é proibido pescar. Deram azar (sorte nossa).
Outra tábua de salvação, além do Estado, é a imprensa, que hoje enfrenta a crise mais grave de toda a sua história. Acuado pelas mídias sociais, o jornalismo é quase uma criatura insepulta. Agoniza diante dos facebooks e dos twitters, e ainda é chamada de “inimiga do povo” por um Trump que torce, obviamente, pela sua completa dissolução.
Imprensa e memória não interessam a essas pessoas. Por isso mesmo, a fita VHS da Shell chega em um momento oportuno. Ela nos lembra que não se deve acreditar em discursos fáceis, nem tampouco em soluções do tipo “ah, vamos lá construir um muro”. Mesmo porque, o muro de Berlim, também chamado de ‘Muro da Vergonha’, caiu em 1989, dois anos antes de a Shell ter resolvido alertar o mundo para o desequilíbrio ambiental.
Vamos à boa luta.

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